15h09 - quinta, 20/06/2019

De novo… a agricultura!


Fernando Almeida
Tenho-me esforçado por explicar aquilo que, de tão evidente que me parece ser, julguei não haver necessidade de ser explicado: nós somos a civilização da agricultura e sem ela o nosso mundo simplesmente colapsava em poucos meses. Convém perceber também (aquilo que já não é tão intuitivo, mas é igualmente importante) que o ambiente pré-agricultura em muitos casos não seria bem aquilo que nós hoje imaginamos…
A nossa imaginação tende a reinventar um passado onde a vida explodia em abundância desmedida, onde as manadas de auroques seriam numerosas, onde a cada passo da floresta saltariam varas de porcos-bravos e rebanhos de cervos, e incontáveis perdizes coelhos e lebres... Mas seria realmente assim? Alguns estudos sugerem que a densidade populacional humana na Europa, antes da agricultura, seria baixíssima, mas também que essa pobreza demográfica seria resultante de uma grande escassez de recursos alimentares. Ora isto dá que pensar. Se um país com a dimensão de Portugal não conseguia alimentar mais que poucos milhares de pessoas que viviam da caça, pesca e recoleção, então o ambiente natural da época não seria tão rico como os nossos sonhos edílicos usualmente o pintam.
Nesta matéria é necessário repensar esse nosso imaginário e referir que algumas das alterações que o homem introduziu nas paisagens naturais na sequência do desenvolvimento agrícola contribuíram fortemente para o seu enriquecimento, e não o contrário. O mesmo meio natural que após a invenção da agricultura proporcionou uma explosão demográfica nas populações humanas (a revolução demográfica do Neolítico) promoveu também a explosão demográfica de muitas outras espécies que beneficiam das novas condições de ambiente criadas pelo agricultor. Não será neste capítulo difícil perceber, por exemplo, que quando o Homem constrói uma pequena charca de rega ou explora água do subsolo para o seu consumo, está igualmente a fornecer pontos de água para toda a fauna silvestre, o que permite que novos territórios sejam ocupados pelas populações animais, e que as mesmas se tornem mais abundantes.
É também preciso perceber que a agricultura tradicional constrói uma paisagem diversificada, onde os campos de cultura se intercalam com áreas florestais ou de matos, e onde as sebes vivas ou muros de pedra contornam muitas vezes os espaços agrícolas. Ora esta nova paisagem, onde o mosaico de espaços diversificados cria ecótonos abundantes, é incomparavelmente mais rica que a maioria das paisagens monótonas desenvolvidas naturalmente. Atribui-se a Estrabão a ideia que "um esquilo podia atravessar a Península Ibérica desde os Pirenéus até Gibraltar sem tocar com as patas no chão". Embora esta ideia esteja certamente longe de ser exata, dá-nos a imagem que haveria grandes extensões contínuas de floresta. Bastará pensar nisso para perceber que essa monotonia florestal seria muito mais pobre do ponto de vista da biodiversidade e mesmo da abundância de vida, que as paisagens intervencionadas pelo Homem depois da agricultura se estabelecer.
Por último, o agricultor, ao artificializar o meio para de produção de alimentos (ricos em amido, em açúcar, vitaminas, etc.), fornece marginalmente alimentação a muitas outras espécies animais que são por vezes base de cadeias alimentares complexas. Onde estavam florestas monótonas ou matos pobres, dominados por vezes por tojos, estevas, tavagueiras ou urzes, instalam-se cereais, pomares ou hortas, e a maioria dos seres vivos ganha (tal como nós) com a troca. Qualquer pessoa que já tenha vivido para lá de meio século saberá sem margem para dúvidas que quando a agricultura se reduz começam a desaparecer muitos animais que dela dependem e também desaparecem os que dependem destes, empobrecendo todo o sistema.
Da incompreensão destes factos básicos nasceu um ódio radical e irracional à agricultura, e por vezes mesmo ao próprio ser humano. Este paradoxo antinatural, em que alguns "ecologistas urbanos de gabinete" parecem advogar a extinção da sua própria espécie, está a moldar ideias e a condicionar comportamentos. Julgam que o ser humano é a fonte de todos os males, não percebendo que são apenas alguns comportamentos de alguns seres humanos que têm que ser corrigidos. Assim tentam por todos os meios separar o Homem da Natureza, como se o Homem, ele próprio, não fosse parte integrante da Natureza. Quando o elefante, em busca de água, abre covas no leito do rio e assim dá de beber a outros animais, acham que é o fascínio da natureza a funcionar; se for o Homem a abrir covas e disponibilizar água aos outros animais, dizem que é uma perturbação inadmissível! Custa a compreender como alguns não compreendem que o ser humano é, também ele, parte da vida do planeta.
Essa mentalidade retrógrada e radical que coloca o ser humano como antagonista do mundo natural e condena as atividades do Homem, também não distingue convenientemente a agricultura, pedra basilar fundamental da nossa civilização, de algumas formas predatórias de produção agrícola, que hoje estão a degradar a qualidade dos nossos solos, das nossas águas superficiais e subterrâneas, a nossa vida selvagem, a nossa saúde coletiva, e o futuro da própria agricultura. E sem compreender estas realidades básicas, nunca perceberão o mundo natural onde vivemos.

O Autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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