12h22 - quinta, 18/07/2019

Sonhos, pesadelos e avisos


Fernando Almeida
Ato primeiro
Aquela ribeira e o vale por onde ela corria eram um sonho, um pedaço do paraíso. A água sempre limpa que quase se podia beber criava agriões selvagens. As rãs e as relas coaxavam nas noites amenas, e peixinhos e enguias andavam furtivamente nas correntes e pegos. Os pássaros a cantar nos ramos das árvores desafiavam o riso e os gritos das brincadeiras das crianças. Quem seria mais alegre? Quem teria mais vida? Ali ao lado, na horta regada no verão pelas suas águas, viçavam os legumes, melancias e abóboras, feijão e milho. Os moços faziam-se alegres, rijos e espertos.

Ato segundo
Aquilo eram peixinhos insignificantes, como eram insignificantes as enguias quase tão finas como cabelos, que já brancas e a apodrecer ponteavam o fundo da ribeira. A morte tinha chegado aquela água vinda de um qualquer veneno, aparentemente útil para ajudar a alimentar a humanidade ou para a sua comodidade. Ao lado do peixe e do meixão havia camarões, minhocas, caracóis e toda a vida que costumava povoar a água da pequena ribeira. Estava tudo morto. Mas tudo junto não valia no mercado nem a mais pequena moeda, e por isso, afinal, toda aquela mortandade não devia ser motivo de preocupação… O mais importante, afinal era o dinheiro.

Ato terceiro
O mesmo veneno que extinguiu a vida da pequena ribeira correu para o rio e, diluído nas águas grossas, não matou mais nada. Não matou, mas deixou a sua assinatura química nos peixes maiores, em todos os que comeram os animais pequenos envenenados, nas amêijoas, e nas ostras e nos mexilhões, e em toda a vida do rio, que embora contaminada sobreviveu. Os agriões e as ervas da ribeira mantinham-se traiçoeiramente verdes, mas também eles contaminados e comidos pelo gado passavam as toxinas para a carne e para o leite. E as gentes, inevitavelmente, comeram os agriões, os peixes e os peixes que tinham comido outros peixes, e as ostras, e as ameijoas, e os mexilhões, e comeram a carne, e beberam o leite… E o mesmo veneno que parecia útil para ajudar a humanidade atingiu a própria humanidade. E o mesmo veneno que se julgava ter sido levado para longe pela corrente, afinal ainda estava lá.

Ato quarto
O velho olhou o horizonte e viu-o coberto de espesso manto de incerteza e angústia. O neto, o sangue do seu sangue, aquele que haveria de perpetuar a sua vida muito para além da sua própria morte, padecia de doença grave e possivelmente incurável. Os olhos rasaram-se de água e os punhos cerraram-se no desespero da impotência. Agora nada poderia fazer para mudar o que estava feito, mas se conseguisse voltar atrás...
E então, como quem passa a vida em revista para ver onde falhou, num momento sem tempo, lembrou-se de tudo. Daquele resto de calda deitado no barranco, da pulverização das árvores de fruto, dos herbicidas que evitaram as cavas, dos "pós" para formigas e baratas, dos "sprays" para moscas e mosquitos que deitara dentro da sua própria casa, do diluente com que lavou as mãos do menino… E o arrependimento e o remorso sacudiram-no como se fosse a própria Terra a tremer, e a água transbordou-lhe, incontida e irreverente como a ribeira em dia de cheia, e os punhos, à força de cerrados como comportas de açude, deixaram as mãos roxas de sangue pisado.

Ato quinto
Acordou. Felizmente era apenas um pesadelo! Ou seria um aviso?

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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