16h24 - quinta, 03/10/2019

Memórias de Santa Clara


António Martins Quaresma
Neste ano de 2019, em que a barragem de Santa Clara perfez meio século de existência e o seu volume armazenado se encontra preocupantemente baixo (48% da capacidade, segundo a página da ABM), assomam memórias de todo um território serrano que, também ele, está quase vazio de gente.
Novos residentes, citadinos em busca de espaços amplos e bucólicos, antítese das apinhadas e stressantes cidades de origem, habitam agora alguns dos montes e descobrem os segredos da barragem, entre eles as antigas paisagens submersas. E assistem, surpreendidos e algo inquietos, às oscilações da altura da água, como agora, quando as encostas dos cerros se alongam, íngremes, à medida que ela diminui.
Há dias estive, com o Vítor, director da RIO – Rádio Internacional de Odemira, e o Rodrigo, operador de imagem, em casa de Pedro Castanheira, localizada em lugar aprazível, com vista para a superfície líquida da albufeira. Do aliciante programa, que este previamente preparou, fez parte, em primeiro lugar, uma visita às ruínas de um velho monte engolido pelas águas, que a descida destas colocou à vista. Connosco iam algumas pessoas de Santa Clara – a Noémia, o António, o Hélio, o António Rita e seu pai Manuel Rita, este um ancião de 86 anos, rijos e lúcidos, que tem veia para a poesia. No percurso, de barco, deparávamo-nos, aqui e ali, com esqueletos retorcidos de árvores, ainda verticais, como vestígios espectrais de um tempo passado.
Na visita às ruínas do monte da Beirã, entre os nossos guias destacava-se Manuel Rita, cujos vivos olhos azul-claros, como a água da barragem, se animavam ao recordar moradores, dos quais desfiava, sem hesitação, os nomes, e pormenores das habitações. Um monte que, na realidade, era um "complexo" de moradias contiguas, onde viviam várias famílias (efectivamente, em 1960, os fogos eram 12, e as pessoas residentes 40), dedicadas a tarefas do campo, em particular a agricultura e a pastorícia, que pagavam renda anual a um proprietário ausente.
Ao ouvir o nome do monte, recordei uma frase do guerrilheiro miguelista Remexido, da primeira metade do século XIX, referindo-se ao "nosso lavrador da Beirã", partidário da sua causa, num tempo de demorada e sangrenta guerra civil, hoje praticamente esquecida.
As casas de alvenaria de xisto, de um só piso, com excepção de uma que se elevava em sobrado, tinham suportado a submersão com alguma firmeza, embora os telhados abatidos e parte das paredes convertida em amontoados de materiais mostrassem o desgaste de cinco dezenas de anos sob as águas. Ao contrário, outras casas da região, feitas de taipa, desfizeram-se completamente durante a imersão. No meio das pedras das casas desabadas, duas ou três grossas traves de madeira de azinho, tão duras e sólidas como aquelas.
Lembrámos um outro lugar – Montalto – também na freguesia de Santa Clara-a-Velha, este em ponto alto, bem acima do nível do grande lago artificial, mas de onde este se avista, em baixo. Também Montalto é uma aldeia silenciosa, fantasma, acerca da qual ainda há quem recorde o bulício de um pequeno "centro" rural, mormente quando, em certas alturas do ano, contando residentes e população flutuante, o número de pessoas chegava à centena. No conjunto das, mais ou menos arruinadas construções, de pedra de xisto e de taipa, ainda são legíveis as antigas funções: habitações, fornos de pão, abrigos para gado...
O universo rural de outrora, sustentado especialmente pela cerealicultura e pela pecuária tradicional, desapareceu há largas décadas, estava mesmo em extinção quando a barragem encheu. Mantém-se alguma feição agropecuária e a exploração florestal, mas fala-se de novo paradigma, que inclui o turismo e o aproveitamento sustentado de recursos, como o medronheiro, que tarda a concretizar-se. Parece não haver "massa crítica".
Rematando esta crónica, volto a Manuel Rita, que, a caminho dos 90, é uma espécie de último representante dos esquecidos agricultores que viram casas e lavras inexoravelmente tragadas pela subida da água, num desgosto que ele verteu em versos sentidos. Demonstra como a mesma realidade pode ter várias faces e como, destas, a memória pode resgatar as mais escondidas.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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