15h00 - sexta, 10/05/2019

Gente da Barragem:
Mariana & Diogo

Gente da Barragem: Mariana & Diogo

A casa de Diogo e Mariana fica sobranceira à barragem, com uma vista deslumbrante, daquelas que daria a capa para uma colecção de postais, um fundo publicitário ou o lugar onde se passa um filme mediterrânico. Em redor da casa há uma tenda para crianças, um colchão elástico de saltos, aqui e ali os vestigios de ocupação de crianças em processos criativos. Desenhos, barro, pequenas instalações definem a envolvência da habitação. Diogo passeia o corta-relva por uma tentativa de relvado, com ar exaurido. Recebe-me com um "a natureza não dá descanso!". Olhando bem, têm razão. Aquela natureza está a levar a melhor. Mariana chega depois, com ar de satisfação, explicando logo o seu ligeiro atraso.

Mariana: Estava a terminar uma peça, uma escultura para apresentar no FEA – Festival Espaços Artistas, chama-se "Quarto crescente". Comecei a utilizar o espaço da Casa do Povo de Sabóia. Desde que nos mudámos para cá que pretendia fazer isso. Embora tenha um atelier em Lisboa, com o tempo aquilo tornou-se mais um lugar de acervo e de reuniões, já não consigo ter espaço. Precisava de um atelier com espaço e algum isolamento para trabalhar e esta relação têm sido muito frutuosa, não só neste aspecto de trabalho como de envolvimento com a comunidade. Acabo por ter ali uma rotina, as pausas no café do Fernando são sempre um lugar de encontro, de conversas súbitas com pessoas novas que são apresentadas e vais conhecendo também melhor as outras. Ao mesmo tempo, vou-me apercebendo da realidade daquele espaço da Casa do Povo, da sua importãncia na vida das pessoas, sobretudo das décadas de 30 até 80, e a forma como as pessoas se relacionavam com aquela estrutura. Acho que acabo por estar a produzir e ao mesmo tempo a tentar ter uma presença responsavel neste lugar onde escolhi viver em permanência.

Entramos dentro de casa. As peças de mobiliário revelam um gosto pelo incomum, mas carregado de significante. Sentamos-nos a uma mesa com um centro giratório, algo que acabarei no final por considerar a imagem de todo o discurso.

SANTA CLARA
Diogo:
Como chegamos a este lugar neste momento? Como sabes, tanto o avô como o pai da Mariana são médicos. Têm esta história de fim de curso e de vir para a província, como se dizia na altura, e começar a trabalhar aqui, em Odemira e Sabóia e em Santa Clara. O avô da Mariana tinha uma relação de muita amizade com o Dr. Calapez Garcia, que era um médico muito reconhecido e criaram aqui laços fortes. Hoje em dia se falares de Mota Capitão, as pessoas lembram-se e é uma memória boa. O pai da Mariana ainda dá consultas em Lisboa a pessoas daqui que se deslocam lá. Por fortúnio do destino um paciente deu este bocado de terreno onde agora está implantada a casa, isto em 83, e acabaram por construir a casa, o pai da Mariana e o tio.
Mariana: O meu pai tinha um amigo que era arquitecto e então vinham todos e acampavam aqui no terreno, para sentir a envolvência do espaço e tomar decisões sobre a orientação solar da casa, esse tipo de coisas...
Diogo: Quando conheci a Mariana e me enamorei dela – isto há 17 anos e já estamos casados há 15 – comecei a vir para cá também em férias com a familia da Mariana. Apaixonei-me logo por este lugar. Depois comprámos também um terreno aqui perto, mas pronto era isso, durante anos passávamos cá as férias de Natal, o Verão, somos pessoas da barragem pode-se dizer.
Mariana: Sim, até os miúdos irem para o primeiro ano podíamos estar mais à vontade com o tempo que passávamos aqui, como temos ocupações profissionais que permitem essa gestão era mais fácil.
Diogo: Durante esse tempo comecei a desenvolver alguns projectos, sobretudo turísticos, um deles acabou por ser vendido e esse dinheiro investido na antiga Fábrica Saborâmica. Comprámos aquele lote de terreno ao Modesto e ficámos com aquilo, ainda a ponderar a sua futura utilização. Inicialmente, por defeito, pensámos em turístico, mas rapidamente nos apercebemos da dificuldade dessa aventura. O problema da sazonalidade, o reconhecimento do próprio destino como espaço de férias que não dependeria não só da nossa oferta mas também do desenvolvimento da oferta em redor e outras vicissitudes. Isto do turismo vêm lá de trás, da minha formação. Sou engenheiro naval de formação, trabalhei alguns anos nessa área e tirei depois uma pós-graduação em gestão hoteleira. Criei algumas empresas: de eventos, tive um bar, empresas de publicidade, sempre pequenos negócios e acabei por começar a investir pessoalmente nesta área do turismo como projecto.
Mariana: Queríamos para aquele espaço da fábrica mais do que um projecto turistico, para se tornar um projecto ideológico. Temos esta relação emocional e afectiva com a região, tínhamos esta vontade de nos mudarmos para cá, mas queríamos atribuir um significado a essa mudança. Queríamos ter um papel a desempenhar também. Nesta nossa vida de idas e vindas não estávamos alheios aos problemas que íamos identificando e acabámos por pegar na Fábrica como um objecto que poderia ser um lugar onde se poderia debater, reflectir sobre essas mesmas problemáticas do território. De uma ideia turística fomo-nos movimentando para um lugar mais ideológico.
Diogo: Foi isso, a dura realidade da inviabilidade económica do projecto turistico fez-nos procurar outras soluções. Procurámos na Câmara de Odemira o relatório social para fundamentar e confirmar as nossas próprias questões, entretanto também fizemos um boot camp no Instituto de Empreendedorismo Social e eles ajudaram-nos bastante com a metodologia do processo de trabalho para estas questões do território. A CLARA – Center for Rural Future tem como fim último, sobretudo, combater aquele que para nós é o maior problema: o despovoamento. Esta causa traz uma série de efeitos. A perda de conhecimentos, de economia, de serviços, etc. Na realidade estes problemas são verticais pelo país todo, não é apenas um problema local. Interessava-nos, por isso, criar um modelo que pudesse ser replicado até noutras regiões, servindo este como modelo. É para isso que trabalhamos. O que de alguma forma até já está a ser feito noutros países, com formatos diferentes se calhar, mas com os mesmos objectivos e até com bastante sucesso. O objectivo da CLARA é multidisciplinar, quero dizer, centrado no desenvolvimento da região no aspecto económico e social, cruzando diferentes disciplinas artísticas, sociais, ambientais etc. Acrditamos que assim podemos ter um papel transformador.
Mas o desenvolvimento per se cultural não vai contribuir directamente para a facilidade de deslocação das pessoas e vice-versa. Como combater o despovoamento numa situação de população com idade média acima dos 65 anos? Não será, de certeza, com políticas de natalidade. A única possibilidade é trazer pessoas de fora, convidar a essa deslocalização e pensar na forma de a tornar atractiva. Há neste momento uma questão global, excesso de concentração urbana, fluxos migratórios em várias direcções, problemas associados à imigração, refugiados, comunidades que procuram situações alternativas de vida, etc. Se colocarmos na mesma equação o repensar dos espaços urbanos, podemos conseguir encontrar aqui uma solução que beneficie ambas as partes. Mas queríamos também que fosse uma comunidade crescente, criativa e transformadora. Além disso devemos olhar para o futuro. A inteligência artificail e a robótica crescem diáriamente, milhares de postos de trabalho vão ser perdidos para a máquina. Nós não lutamos contra isso, lutamos para uma alternativa que procura no lado mais criativo o espaço que sempre deveria ter sido o papel do Homem, um criador de Humanidade.
Mariana: É este tipo de relacionamento com diferentes pessoas de diferentes áreas científicas e económicas e artísticas que permite esta ideia de inteligência colectiva, reflectir em conjunto e encontrar modos de actuação.

A ROTINA
Mariana:
Anossa rotina aqui é igual à de outros pais. Incorporas os tempos dos miúdos na tua própria agenda e é essa sempre a prioridade. Todos os três, a Inês a Caetana e o Simão, estão na escola de Sabóia, em ciclos diferentes, mas acabam sempre por se encontrar no refeitório, o que é muito bom. É claro que foi uma preocupaçao esta decisão de nos mudarmos definitivamente no Verão passado. Viémos em Agosto para preparar essa integração depois em Setembro. Mas foram tão bem recebidos pela comunidade escolar que tudo foi fácil. O facto de ser uma escola pequena, onde todos se conhecem, dos mais novos aos mais velhos, os funcionários e os professores, acaba por ser mais um ambiente familiar e eles gostaram muito disso.
Diogo: O curioso é que nos mudámos ao mesmo tempo que os meus cunhados. E os filhos deles e os nossos, somados, representam quase 10% da população escolar em Sabóia e isso tem impacto. A nossa grande preocupação é a sua educação e a saúde e isso fez-nos pensar muito antes de tomar esta decisão de mudança.
Mariana: Mesmo para a construção individual deles esta mudança chocalhou um pouco a sua estrutura. Depararam-se com uma grande diferença ao que estavam habituados e tiverem de olhar também para fora além de só olharem para dentro. Isso têm tido consequências muito positivas no seu crescimento, às quais estamos atentos e muito orgulhosos.
Diogo: Queremos passar-lhes valores que são importantes, de respeito pelo próximo, de espírito de colaboração, de ajuda aos que mais precisam. Passamos estas ideias como desafios, como forma de estimular continuamente neles essa preocupação saudável de se construírem como pessoas abertas.

A CLARA
Diogo:
O que nós somos é também como projectamos o futuro da CLARA – Center for Rural Future. Este projecto nasceu a partir da criação de uma associação sem fins lucrativos e tem como fim esta ideia central de contribuir para o repovoamento desta região a partir da criação de dinamismos para pensar o futuro rural. Começámos por receber um apoio do Turismo de Portugal, dentro de um programa de valorização do interior, que é o que estamos agora a executar. Estamos neste momento a preparar um acampamneto de Verão com o colectivo Hollis, que são jovens empreendedores que vêm pensar as problemáticas locais. Algo que pretendemos ter numa regularidade anual. Estamos também aplanear uma segunda residância artistica, a primeira a Mariana pode explicar melhor.
Mariana: Dentro da fábrica estava recolhido um enorme rebanho de ovelhas, estiveram por ali durante dois anos, e como deves imaginar produziram uma quantidade muito substancial de "caganitas". A determinada altura tornou-se imperativo fazer uma limpeza tremenda naquilo, então para tornar a coisa mais interessante e motivacional lembrei-me de convidar dois grandes amigos e artistas, a Susana Amaral e o Daniel Alfacinha, que também fazem parte da associação, a realizarem comigo umas intervenções a partir de todo aquele material ali disponivel. Foram cinco meses de trabalho, de Janeiro a Maio de 2108, todos os fins-de-semana e férias, e com a ajuda da família, amigos e sempre com esta ideia de construção de objectos a partir daquilo, o espaço acabou por ser limpo e termos até obra feita no fim.
Diogo: Temos diferentes pessoas a trabalhar e a desenvolver a CLARA numa perspectiva rizomática. A área de reabilitação de eco-sistemas com dois projectos distintos. Um de reflorestação, a partir de uma experiência com o próprio espaço da CLARA, ambientalmente degradado que gostaríamos depois de replicar em outros terrenos, a convite ou por proposta directa aos proprietários. E outro de valorização dos recursos hidrícos, em que estamos a trabalhar com a engenheira Helena Ribeiro. Já há neste momento uma acção em conjunto com a Universidade de Évora num projecto de monitorização das águas. Vai ser apresentado ainda este mês de Maio na Escola de Sabóia, aberto à comunidade, pela professora Manuela Morais, da Universidade de Évora, que promove esta iniciativa.
Mariana: Uma das nossas preocupações é que os nossos projectos sigam guidelines de actuação e uma delas é poder formar e educar neste sentido que pretendemos e gostaríamos que acontecesse. Os projectos não existem sem a participação da comunidade, queremos contribuir para um empowerment e capacitação numa perspectiva de permuta de conhecimentos.
Diogo: O nosso processo de trabalho implica uma check list de objectivos, em que pretendemos cruzar pelo menos a maioria deles, como a valorização dos recursos locais, a capacitação da comunidade local, o seu nivel de envolvimento, etc. Pensamos por exemplo em turismo e queremos reflectir sobre isso. Sobre um turismo ético e sustentavel. As questões climáticas e o que podemos fazer localmente para contribuir na sensibilização para mitigar esses efeitos trabalhando as causas. Um outro projecto está ligado à valorização de um recurso que neste momento possuímos mesmo dentro da fábrica – barro – e como este poderá ser reutilizado em construção ou em objectivos artísticos, numa ideia de economia circular à qual estamos ligados com o projecto "Warehouse". A própria questão da alimentação, a forma como nos alimentamos, a produção de alimento. O desvincular da relação do produto final com a sua produção faz com que se desvalorize esta relação, que não se dê grande valor a este trabalho e isto afecta a forma de pensar das pessoas, as próprias politicas, creio. Mesmo em termos culturais gostaríamos de ter um papel agregador que possa contribuir e reforçar os projectos individuais. Os vários elementos deste colectivo têm os seus próprios objectivos e interesses e planos pessoais e na nossa base queremos é apoiar os sonhos de cada um.
Mariana: No fundo pensar associativismo, desfazer desconfianças e juntar sinergias para ocupar uma maior presença e impacto junto das entidades que podem suportar este projecto, que é para todos.
Diogo: No fundo estamos sempre a falar de transformação. E para ter esse papel transformador não podemos viver numa bolha, nada se transforma aí. É preciso dar uma voz ao interior, trabalhar de facto a colaboração com acção, mudanças de hábitos para uma melhor eficiência no tratamento dos recursos que nos envolvem, criar novos interesses.
Mariana: Com a comunidade há um momento em que já não nos sentimos outsiders, somos parte e respiramos o mesmo ar. O nosso projecto também é orgânico e levará o tempo que precisar para crescer.

Se tiver interesse, ficam em baixo alguns links para ir acompanhando este projecto pessoal e associativo:

Mariana Dias Coutinho: www.marianadiascoutinho.pt
FEA – Festival Espaços Artistas: www.fealisboa.com/program
CLARA: www.claralab.org
HOLIS: www.weareholis.org/summer-school/holis-19-portugal
COLECTIVO WAREHOUSE: http://warehouse.pt

Outros parceiros destes projectos:
PORTAL DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL: www.csustentavel.com/en/
CIRCULAR ECONOMY PORTUGAL: www.circulareconomy.pt


COMENTÁRIOS

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Data: 10/05/2019
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