12h20 - quinta, 17/09/2020

No tempo em que os animais falavam


Fernando Almeida
Toda a gente sabe que houve um tempo em que os animais falavam. Falavam entre si, e falavam também com os homens, que eram, e ainda são, animais como os outros. O que muita gente não sabe é que nesse tempo as plantas também falavam, e falavam entre elas, mas também falavam com os animais, e portanto também com o homem.
Nesse tempo distante os seres vivos assinaram contratos entre eles, contratos esses que foram feitos para vigorar para sempre, e para serem respeitados pelos descendentes dos que os combinaram nesses dias. Foi assim que algumas flores negociaram com as abelhas o serviço de transporte do pólen, em troca do qual poderiam ficar com algum para si mesmas e ainda com uma ração suplementar de néctar. Por esses dias os carnívoros acordaram caçar sempre que possível os animais doentes e velhos, de forma a permitir a saúde e a reprodução das suas presas e a continuidade das espécies para sempre. Os gaios combinaram com os carvalhos e sobreiros transportar e enterrar algumas das suas sementes durante o outono, mas em troca poderiam comer parte delas, e assim engordar para melhor suportarem o inverno…
Um belo dia um grãozinho de cevada selvagem que um homem ia comer propôs-lhe também um negócio que poderia ser bom para ambos: se o homem garantisse que guardava algumas dessas sementes em lugar seco até ao outono, e nesse tempo remexesse a terra, arrancasse as ervas e as semeasse, a cevada de futuro seria mais gorda e nutritiva, e assim o homem podia fazer pão e alimentar-se dele todo o ano. Mas o homem ficava obrigado a guardar de novo algumas sementes e a reiniciar o ciclo todos os anos. A cevada garantia o seu sucesso como espécie e o homem também. Os negócios são bons quando dão vantagem a ambas as partes, e aquele era um bom negócio. Por isso assinaram um contrato a valer para sempre.
É claro que quando o trigo e o milho e o arroz e tantas outras plantas selvagens souberam deste contrato, perceberam que havia um animal disposto a trabalhar para garantir a sua sobrevivência e difusão no mundo, e que em troca apenas queria alimentar-se de algumas das suas sementes, foram também ter com o homem e assinaram contratos semelhantes.
Mas na natureza nesse tempo não havia segredos e alguns animais viram na relação com os homens uma possibilidade interessante de garantir o futuro das suas espécies. Um dia uma cabra selvagem, fartinha de ser perseguida por ursos, devorada por lobos ainda em vida, de morrer de frio em dias de chuva e de fome em épocas de seca, foi ter com o homem e também negociou um contrato parecido: o homem podia matar os mais velhos, parte das crias e mesmo usar o leite que elas tivessem a mais, mas em contrapartida defendia-as das feras selvagens, construía abrigos para as poupar à dureza das intempéries, recolhia e armazenava forragens para ela, e no fim de contas permitia que tivessem uma boa vida e descendência garantida.
Mais tarde vieram outros animais falar com o homem, uns oferecendo-se para colaborar no transporte dos seus haveres, outros para ajudar na caça e na defesa, para guardar os celeiros dos ratos… e tudo isto em troca da segurança, alimentação, proteção contra predadores e dureza do clima, e garantia de perpetuação das respetivas espécies. Como aconteceu em outros contratos celebrados entre seres vivos, os que foram feitos com o homem asseguravam a expansão e o sucesso reprodutivo dos envolvidos, que é afinal o objetivo último de todas as espécies.
Todos estes contratos, antigos e recentes, foram feitos aos milhares entre os nossos antepassados, as plantas, e os animais, e dão-nos ainda hoje o direito de usar os recursos da natureza, mas também a obrigação de respeitar e proteger os seres vivos que connosco partilham o planeta.
Sem esses contratos de ajuda mútua a abelha morreria ao lado da flor sem néctar, e esta acabaria por desaparecer também sem deixar descendência por não ser polinizada. O homem morreria de fome sem a cevada e o mais que semeia nas terras arroteadas, mas as plantas cultivadas desapareceriam em pouco tempo, e o mesmo sucederia aos animais domésticos e mesmo a muitos dos selvagens.
Muitos homens já não falam a língua da natureza e também já esqueceram os contratos antigos, e por isso não sabem o que devem pensar sobre a nossa relação com o mundo vivo: uns julgam que o homem é senhor universal da criação que só tem direitos e não tem obrigações na sua relação com a natureza; outros acham que o ser humano só tem obrigações para os animais e plantas, não tem direitos nenhuns, e que é um ser maldito que deveria ser banido da Terra. Parece que todos esquecem que os contratos que estabelecemos com animais e plantas contêm direitos e deveres para todas as partes, e se forem cumpridos de boa-fé, conforme foram assinados no início dos tempos, será garantida a sobrevivência e a qualidade de vida para todos.
Por isso, é melhor que recordemos os contratos que os nossos antepassados assinaram com os outros animais e plantas, e que são semelhantes a tantos outros celebrados entre as plantas e entre os animais que povoam o planeta. Todos eles conferem vantagens, mas também criam obrigações para todos os envolvidos.
E, por favor, voltem a escutar a natureza e tentem entender o que ela diz, porque me parece que os animais e as plantas ainda falam, só que nós, por vezes, já não temos tempo ou sabedoria para os escutar!

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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