13h01 - quinta, 12/11/2020

Grandes méritos ou nem por isso…


Fernando Almeida
Diz-se que o modelo de avaliação que vigora na administração pública (e não só) foi criado para valorizar e premiar quem tem melhor desempenho e assim aumentar a produtividade das pessoas e instituições. Quando foi implementado, foi dado a entender que serviria para expurgar a administração pública dos "bandos infindáveis de parasitas" que se dizia que infestavam o aparelho de Estado. Dizia-se que os professores estavam "de pantufas à lareira", os enfermeiros e médicos do Serviço Nacional de Saúde eram descuidados e indiferentes aos doentes, os administrativos de qualquer ministério inúteis e laxistas, os técnicos do Poder Local eram corruptos e vagarosos… E como se sabe, uma mentira repetida mil vezes…
Agora vê-se bem (e quem andasse atento na época já o poderia ter visto) que era uma campanha organizada de forma sistemática, com notícias falsas nas redes sociais, e com uma abordagem enganadora mesmo na comunicação social, mais baseada no exagero e na generalização indevida, que na apreciação imparcial e justa da realidade. Havia vários objetivos nessa campanha, entre os quais o de dar a ideia à população que era preferível entregar os serviços públicos às empresas privadas, porque o Estado seria pela sua natureza inevitavelmente ineficaz e improdutivo. Era preciso privatizar tudo, "a bem da nação".
É claro que com tantas centenas de milhares de funcionários, há realmente alguns que não são um bom exemplo do espírito de serviço público que deveriam ter, mas são apenas alguns, porque a maioria não corresponde à imagem que se tentou criar. Tentou-se, e conseguiu-se, que a parte fosse tomada pelo todo, e assim denegrir a função pública no geral.
Essa campanha não serviu apenas para privatizar a torto e a direito, criar PPP's na saúde, na educação, nos transportes, nas rodovias, transformar em negócio privado o que devia ser serviço público, afinal conduzir um assalto desenfreado aos cofres do Estado. De forma discreta, mas eficaz, serviu também para impor o tal modelo de avaliação de desempenho que supostamente iria melhorar o sistema, mas que afinal serviu sobretudo para dividir os trabalhadores (agora chamam-lhes "colaboradores") e melhor os conseguir controlar.
Essa função de "dividir para reinar" foi, sobretudo, conseguida pela introdução de "quotas" no regime de progressão das carreiras dos profissionais, o que evidentemente teria que conduzir à competição entre eles na busca de uma das poucas vagas existentes para progredir nas carreiras. A coisa na época foi aceite, precisamente porque quem se mostrasse contra o regime de avaliação imposto (na época dizia-se que era estar contra a avaliação em si) passava por ser um dos tais "preguiçosos" que tinha medo de ser avaliado e ninguém queria ser visto dessa forma por colegas e pela comunidade.
O modelo de avaliação imposto tem-se mostrado desastroso, desde logo porque para conseguir superar os "objetivos" estabelecidos, por vezes eles próprios absurdos, se cometem erros de palmatória. Os exemplos mais esclarecedores vieram do setor bancário em que os funcionários concederam empréstimos (para cumprir os objetivos estabelecidos) a quem nunca conseguiria pagar, e com isso deram início a uma crise da economia mundial (foi o caso da crise do "subprime", mas não só). E ao contrário daquilo que seria desejável, os dirigentes não aprenderam a lição e não repensaram o sistema de avaliação, talvez pela vantagem que têm visto no controlo dos "colaboradores".
Mas um sistema que cria competição entre os trabalhadores cria também antagonismos, invejas e dificulta a cooperação: convém que as coisas não corram muito bem aos colegas, porque isso pode significar o fechar de porta à sua própria progressão. Assim, a competição conduz com maior frequência à baixa de produtividade, pela perda de cooperação entre os "colaboradores" e mau ambiente que se cria entre eles, que ao desejado aumento da produtividade.
Em consequência desta realidade muitos são os que passaram a trabalhar para cumprir os objetivos estabelecidos e, portanto, ter uma boa avaliação, mas estão menos interessados em resolver os problemas reais que têm pela frente. E assim chegamos muitas vezes ao paradoxo de os que genuinamente estão empenhados no serviço público serem ultrapassados na avaliação pelos que apenas se especializaram em trabalhar para a avaliação…
E como acho que esta realidade é tão clara e evidente, custa a perceber como alguns ainda não a viram. Será que quem decide nunca mais aprende que a cooperação é mais produtiva que a competição?
É falta de inteligência ou má-fé. Imaginem só a classificação que teriam se fosse eu a avaliá-los!

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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