17h04 - quinta, 14/01/2021

Os boatos modernos


Fernando Almeida
O Sr. Zé era um mecânico de automóveis, velho e de muito poucas letras, que me acudia nas aflições quando eu era jovem e o meu carro tinha quase a minha idade. Um dia o velho carrinho acendeu uma luzinha vermelha a indicar que estava demasiado quente. Assustado, com medo que o motor gripasse, chamei o Sr. Zé. Segundos depois de pôr o carro a trabalhar, a malvada luzinha vermelha acendeu e eu, de coração apertado, avisei disso o Sr. Zé, temendo que o motor derretesse. Ele no entanto insistiu para que continuasse a acelerar. Pouco depois insisti: Sr. Zé, olhe que a luz acendeu! O velho e paciente mecânico pediu-me gentilmente para sair do carro e para pôr a mão sobre o motor, que evidentemente estava ainda praticamente frio, e disse-me: mesmo que a luzinha acenda a indicar que o motor está muito quente, se tocar no motor e vir que ele está frio, o que está mal é a informação que vem do sensor de temperatura, não o motor. Aprendi a lição e uso-a muito para lá dos problemas com automóveis. Por muito que se diga e repita algo que não faz sentido, não acredito até ter uma confirmação fiável da informação, o que geralmente não acontece. Ainda hoje agradeço ao Sr. Zé pela lição de vida e de sabedoria que me deu.
É muito provável que a nossa palavra "boato" provenha do termo fenício "boâôt" que significa em fenício "falar falsificado" ou "dizer distorcido". É por isso possível admitir que o conceito de "boato" tem pelo menos alguns milhares de anos, mas o mais certo é que a falsificação ou a distorção da informação seja tão antiga como o falar humano. Em tempo de pandemia apetece comparar o boato a este vírus que nos apoquenta, tanto pelos males que pode causar à sociedade, como pela forma de se transmitir. Os boatos, ou seja, as informações distorcidas ou falsificadas, também são como os vírus em vários aspetos. Por exemplo, se não tiverem algo de escandaloso ou de algum modo chocante, são como os vírus que não se conseguem transmitir de hospedeiro em hospedeiro e logo acabam por se extinguir. Mas o boato, como os vírus que matam o hospedeiro muito depressa, também se extingue rapidamente se for demasiado inverosímil e levar o "hospedeiro" a desacreditar a informação recebida, e em consequência não a reproduzir. Como diz o poeta, "P'ra mentira ser segura e atingir profundidade, tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade".
E porquê falar de boatos e de notícias enganadoras agora? A razão é simples: como quase tudo o que compõe a nossa vida quotidiana, também as informações adulteradas com as quais nos pretendem enganar têm crescido exponencialmente, tanto em volume como na velocidade de propagação, e isso torna-se perigoso para cada um de nós e para a sociedade em que vivemos. Antigamente uma notícia falsificada propagava-se lentamente, nas feiras em que as pessoas se encontravam, num baile, numa taberna, e demoravam meses ou anos a difundir-se. Durante esse tempo acabava por a verdade, que "vem sempre ao de cima como o azeite", surgir a combater a falsidade, e os efeitos do boato eram anulados com algum sucesso. Agora as notícias com que nos pretendem enganar surgem em grande quantidade e propagam-se à velocidade da comunicação moderna, e quase não dão tempo para que se faça o desmentido.
Há hoje fabricantes profissionais de notícias falsas, de preferência bem escandalosas e acompanhadas por imagens apelativas e quase irresistíveis. A República da Macedónia do Norte é um dos grandes centros mundiais de produção dessas fake news e os rendimentos da atividade, pelos vistos, são muito compensadores, porque a notícia falsa é desenhada para atrair utilizadores da internet e assim lhes "vender" publicidade. Negócios modernos…
Há notícias falsas criadas por outros profissionais da mentira, mas estes são pagos diretamente pelos interessados em difundir ideologias e mensagens políticas. Diz-se que foi em boa parte usando destes expedientes que Donald Trump conseguiu ser eleito presidente da maior potência militar do mundo, o que é evidentemente assustador. Portugal não está imune a este tipo de demagogia profissional e a cada passo se encontram notícias deturpadas feitas para nos moldar o pensamento e nos conduzir para caminhos às vezes inconfessáveis. Com frequência até nos mostram imagens com as quais nos pretendem convencer de uma mentira, mas cuidado: a fotografia normalmente é de outro local, de outra pessoa, de outra guerra, de outro ano… mas para essa gente sem escrúpulos tudo serve para consumar os seus objetivos.
Não há muito tempo segui numa rede social uma dessas notícias falsas (no caso apelando ao racismo e à não aceitação de imigrantes entre nós) até encontrar o seu difusor. Correspondia a um perfil de alguém que se dizia ser uma jovem arquiteta e que se identificava com uma foto de uma criança loirinha de cabelos aos anéis, ingénua e pura. Assim que o denunciei publicamente como sendo um perfil falso, o seu próprio autor eliminou-o, mas estou certo que também de imediato criou outro perfil igualmente enganador com o qual nos vai tentar manipular de novo. Alguém lhe está a pagar para esse "serviço", o que também é assustador.
Com a televisão, rádio, jornais e, principalmente, com a internet e as suas redes sociais, somos bombardeados permanentemente com tanta informação que acabamos por dedicar pouco tempo à sua filtragem e aprofundamento, e por isso temos tendência a reter as ideias principais de forma pouco crítica. Muitas vezes, sem querer, acabamos por partilhar esses boatos modernos e por contribuir para a sua reprodução.
Penso que nos dias que correm temos que ter cada vez mais cuidado e que devemos lembrar o Sr. Zé: se vos parecer que uma informação não faz sentido ou não parecer que se pode confirmar com fontes sérias e credíveis, simplesmente não acreditem e não a partilhem. Não ajudem a propagar os boatos modernos, que são hoje verdadeiros vírus da mentira que contagiam e fazem adoecer a sociedade em que vivemos.



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