15h40 - quinta, 28/01/2021

Um (perigoso) sinal dos tempos!


Carlos Pinto
O último domingo, apesar da pandemia, foi de eleições. Neste caso, eleições para a Presidência da República, em que o vencedor foi o esperado pela margem antevista. Por isso mesmo, a grande surpresa do sufrágio acabou por ser o resultado obtido por André Ventura, o candidato apoiado pelo Chega, partido assumidamente de extrema-direita, que acabou por garantir quase meio milhão de votos.
Os movimentos populistas e extremistas têm vindo a crescer nos últimos anos um pouco por todo o mundo. De França a Itália, da Polónia à Holanda, do Brasil aos EUA, são vários os exemplos de forças extremistas que ganharam expressão política e, nalguns casos mesmo, assumiram inclusive a governação dos respectivos países.
Por oposição, Portugal e os portugueses tinham vindo a conseguir resistir a este "canto da sereia" dos populistas e, na hora de votar, optado invariavelmente por projectos mais moderados e consistentes no plano político.
Só que o discurso fácil (e oco) destes movimentos é como um vírus que vagueia em busca de um portador cujas defesas estejam fragilizadas, o que acabou por encontrar (ainda que disfarçadamente nas Legislativas de 2019 e agora mais declaradamente nas Presidenciais de 2021) na insatisfação de algumas franjas da população.
Os baixos salários, os problemas sociais, a desconfiança em relação àqueles que são diferentes ou de fora, muitas vezes apenas as frustrações pessoais de cada um, são "terreno fértil" para a ascensão desta linha de pensamento e, consequentemente, para o crescimento eleitoral de partidos como o Chega. Ainda mais no complexo período que todos vivemos, devido a uma pandemia que não dá tréguas e que começa a fazer perder a paciência de muita gente…
Por isso mesmo, o resultado de André Ventura é um sinal dos tempos que vivemos. Um perigoso sinal! Desde logo, um sinal de alerta para os partidos "tradicionais", que muitas vezes parecem viver numa "bolha", alheados do que se passa para além de Lisboa e sem compreender que o combate a este tipo de movimentos não se faz com gritaria, mas sim com a discussão de ideias, por forma a colocar a nu as fragilidades e incoerências deste tipo de discursos.
Mas constitui também um sinal de aviso para todos nós, enquanto indivíduos e membros de um comunidade, que muitas vezes cedemos à intolerância sem questionar as causas do que criticamos e sem tentar vislumbrar além do óbvio. Isso é meio caminho andado para o desastre!



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