15h40 - quinta, 28/01/2021

Passeio público


António Martins Quaresma
1. Bons propósitos fora de propósito
Dirigia-se para casa, a pé. De repente, uma cena inusitada: um grupo de crianças pequenas, decerto de um infantário da vila, acompanhadas por alguns adultos, divertia-se, chapinhando na poça de água, acumulada na anterior noite de chuva. Programa preparado, tudo indicava, destinado a proporcionar um recreio especial. Quis gravar o quadro e puxou do telemóvel. Uma voz grita-lhe: "Não pode fotografar crianças". Pareceu-lhe uma das vigilantes do grupo. Esboçou uma resposta, mas a mesma voz repetiu, convicta: "Não pode fotografar crianças".
Na verdade, estava a fotografar um acontecimento que continha crianças, mas, parecia-lhe claro, o que pretendia era captar a essência da cena: a alegria da criançada num contexto paradoxal, em que, liberta da usual proibição, faz aquilo que todas as crianças de três anos gostam de fazer, chapinhar na água. Sem identificar particularmente qualquer das crianças, ou adultos, presentes, como se pode verificar na foto n.º 1. Claramente a dona da voz não percebeu isso, e, numa reacção protectora, mas despropositada, atirou com o cliché, não fotográfico, mas verbal.
Fotografar crianças é proibido, mesmo em espaço público, como o é fotografar adultos sem sua autorização, bem assim dar uso público, de qualquer forma, às fotografias obtidas. Hoje, o direito de cada um à sua imagem, consagrado, desde logo, na Constituição, em particular no caso das crianças, é tema candente. A polémica da publicação de fotos de crianças nas redes sociais, pelos próprios familiares, continua viva. E percebe-se porquê.

2. Ageísmo
Uma mulher jovem e outra idosa, à entrada do autocarro da excursão à praia. A primeira com aspecto de funcionária de instituição geriátrica, a segunda com ar de utente dessa instituição. A jovem falava alto, como se a destinatária tivesse problemas de audição, num tom e em termos, dir-se-ia contraditoriamente, quase maternais. Na verdade, a idosa era tratada carinhosamente, mas como se fosse uma criança. "Já lavou as mãozinhas?" Um clássico: a infantilização dos velhos. Muitas vezes no seio familiar, mais vezes ainda em contextos que incluem relação profissional. Com impactos psicológicos, que, pelo menos, os profissionais deviam entender. Bibliografia sobre o assunto não falta.
Na foto n.º 2 podemos observar, a propósito, uma pintura a óleo de uma velha senhora amasigh, ou berbere, do Norte de África, de cuja cultura a população portuguesa recebeu contributos, hoje confirmados pelos próprios estudos genéticos.

3. Da generalização
Dois pequenos grupos de crianças e de adultos, cruzam-se no passeio. As primeiras com máscara protectora, própria destes tempos de crise pandémica; os segundos, de cara descoberta. A cena parece desmentir, no momento, a ideia de que os mais novos são menos sensíveis às ameaças virais, mas, claro, o exemplo não faz a regra. Generalizações a partir de casos são exercícios falhos de racionalidade: para generalizar só a ciência tem legitimidade.
Sabemos que há gente para tudo e que o comportamento humano pode envolver motivos bem complexos, mas, se descontarmos certa faixa da população adepta de delirantes teorias da conspiração como explicação para todos os fenómenos, as pessoas, consideradas isoladamente, propendem, geralmente, a ter uma atitude racional. No fundo, é senso comum e instinto de conservação.

4. Pragas
Para terminar. Correm por aí duas grandes pragas, uma viral, outra político-social. Quanto a mim, estou vacinado contra a segunda, há mais de 50 anos, e continuo imunizado. Muitas vezes relacionada com esta, há uma terceira maleita social muito comum – a falta de civismo – que obriga a existência de avisos como o da foto 4.



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