12h44 - quinta, 11/02/2021

Como nascem os populismos


Fernando Almeida
Uma notícia quer-se séria, factual, e isenta; o comentário que sobre ela se faça deve ser esclarecedor e rigoroso; e a crónica que sobre o mesmo assunto se escreva terá que refletir naturalmente um certo ponto de vista, mas não pode ser demagógica. Se não for assim, estaremos em presença de propaganda, de matéria para vender publicidade, de deturpação da realidade para pagar favores… mas não de informação. A disputa por audiências, a necessidade de títulos bombásticos, a febre de números, de cifrões e de agradar a clientelas, tem vindo a transformar a informação que nos vendem numa atividade que de jornalismo sério tem cada vez menos.
Se não resultassem consequências graves para o nosso futuro coletivo desta situação, este assunto não mereceria atenção e cuidado, mas não é assim. A deturpação da realidade, o querer "vender a parte pelo todo", e mesmo a aceitação da "notícia" claramente forjada, passou a valer, desde que satisfaça inconfessáveis interesses políticos, ideológicos e comerciais.
Lembro a propósito destas linhas uma muito badalada filmagem de uma menina que na guerra da Síria era supostamente atingida por um tiro vindo dos apoiantes do presidente Bashar Al-Assad. Depois vinha um "menino salvador" que no meio de tiros a resgatava, como herói romântico em pleno século XXI… Que um de nós, simples cidadão distraído com mil coisas da nossa vida, não tivesse visto de imediato que se tratava de uma peça propagandística anti Assad/Rússia forjada num qualquer estúdio de cinema, aceita-se… Mas jornalistas de carteira profissional no bolso? Redações inteiras? Ninguém viu o que se metia pelos olhos dentro de qualquer cego?
Era tudo forjado, claro, e isso acabou por se saber. Mas todos os jornalistas já o sabiam antes. Então, porque motivo os noticiários passaram repetidamente aquela pseudonotícia fraudulenta? Claro está que simplesmente porque iria dar audiências ao respetivo noticiário, ao respetivo canal, e isso é bom para quem dirige, vende, dá dinheiro. Além disso vai a favor da ideologia dominante, que instalada de várias formas no poder da comunicação social, não desdenha a desinformação a bem do controlo da opinião pública. Este é apenas um exemplo entre o jorrar constante de fraudes e notícias tendenciosas (que circulam na comunicação social "séria" e ainda muito mais nas redes sociais) com as quais nos vão tentando manipular.
Mas o mau serviço que a comunicação social vem prestando passa mais frequentemente pelo distorcer sem mentir. Se eu gastar meio noticiário televisivo a falar de uma dúzia de casos de pessoas que tomaram uma vacina indevidamente, e não esclarecer que esses casos são absolutamente excecionais (uma mão cheia entre centenas de milhar), a coisa vende e satisfaz a guloseima por audiências e dinheiro fácil das estações de televisão… mas também ajuda a criar a ideia que vivemos ensopados num lamaçal de corrupção interminável e sem solução, o que nem sequer é verdade. Do mesmo modo, se em vez de exaltar os milhares de funcionários públicos que nas mais diversas funções todos os dias dão o seu melhor pelo bem comum, só aparecerem notícias sobre os raros pedófilos, corruptos, ou incapazes, cria-se a ideia que o funcionário público não vale a água que bebe… não é verdade, mas "vende". E a "notícia" tem vivido disto.
E se depois de um dia vem um outro, e depois de um exagero ou de uma notícia manipulada vem uma outra, o descrédito no sistema em que vivemos instala-se necessariamente. Político é obrigatoriamente corrupto, professor é pedófilo, médico é incompetente e só cuida de nós se estiver no privado, o administrativo do Estado é laxista…
Esta obsessão pelas audiências também criou um jornalismo depressivo e negativista, que acaba por afastar as pessoas da própria comunicação social. Muitos deixam mesmo de aceder à informação precisamente porque ela só mostra o pior que o mundo tem, deixando a ideia que vivemos num mundo podre e sem futuro. Na verdade, uma análise lúcida e tranquila baseada em factos, conduzirá à conclusão oposta: talvez nunca se tenha vivido tão bem entre nós como agora. Que o digam os mais velhos que passaram fome e frio, que não tiveram acesso à escola, que não dispunham de médicos nem de hospitais… Mas a ideia que nos criam é a oposta dessa, e tem um impacto negativo sobre cada um de nós e sobre a sociedade em que vivemos. Além do resto, cria mau estar e contribui até para uma quase "depressão coletiva".
Mas desacreditar o sistema democrático e o seu modo de vida acabará inevitavelmente por conduzir ao enfraquecimento e à falência da própria democracia. As gentes, não percebendo que nunca se viveu tão bem como hoje, e criando ao contrário a ideia que se vive no pior dos mundos, vão querer mudar. E um dia podemos voltar a ter um regime autoritário com mais corrupção, mais violência, mais insegurança e injustiças de todos os tipos, mas que simplesmente são silenciadas por uma qualquer censura à comunicação social e por uma eficaz polícia política. A História está cheia disso. Por isso, haja cuidado e rigor quando se trabalha como jornalista. Não pode valer tudo para ganhar audiências e agradar às administrações.
E, estranhamente, são por vezes os mesmos jornalistas que ajudam a criar uma imagem da sociedade degradada e depressiva, que se queixam da ascensão dos Bolsonaros, dos Trumps, e dos Chegas… Será que não vêm que contribuem todos os dias para isso?

O autor utiliza o novo
acordo ortográfico



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Data: 07/05/2021
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