10h16 - quinta, 11/03/2021

Bibliotecas itinerantes Gulbenkian


António Martins Quaresma
Este é um escrito nostálgico sobre as bibliotecas móveis, instaladas em carrinhas Citroën HY, um programa criado no citado ano de 1958, pelo escritor Branquinho da Fonseca, que então o propôs à Fundação Gulbenkian. Ele haveria de dirigir este serviço de empréstimo de livros por mais de 15 anos.
Quis encontrar uma fotografia da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian que nos anos a partir de 1958 visitava a minha terra, para ilustrar esta crónica e não encontrei. Talvez alguém tenha, mas eu, infelizmente, não. Logo um ícone da minha infância e juventude! Assim, busquei na net, onde naturalmente há muita informação sobre o assunto, com fotos à mistura.
Recordemos, sumariamente, que Calouste Gulbenkian (1869-1955) era um abastado empresário arménio do sector do petróleo, naturalizado inglês, que, no testamento, deixou grande parte do seu rendimento para a fundação que leva o seu nome, sedeada em Lisboa. O papel desta fundação foi de tal ordem importante que, num país atrasado e carente de estruturas neste sector, chegou a dizer-se que ela era o verdadeiro ministério da ciência e da cultura. E a rede de bibliotecas itinerantes e fixas, um marco, diria fundamental, na difusão cultural. As suas carrinhas percorreram, com regularidade, milhares de quilómetros, levando o livro a pequenas povoações.
Um escrito nostálgico, escrevi no início. De facto, lembro, já na lonjura de largas dezenas de anos, a emoção que era a chegada do dia marcado para a vinda da biblioteca, mensal e depois quinzenalmente, com os cinco livros da última requisição mais do que lidos. E a imagem particular da carrinha cinzenta, de chapa ondulada, a estacionar no Largo da Igreja. Vinha de Santiago do Cacém, uma das sedes das bibliotecas itinerantes, e "tripulavam-na" dois funcionários, junto dos quais procedíamos à entrega dos livros lidos e a nova requisição. Um deles, ainda me recordo do nome, era o Sr. Nunes, que estabelecia conversas sobre escritores e obras literárias com o Júlio Moura, homem de muitas letras, que sabia de cor poemas, por exemplo extractos da Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. Gratuito, com o seu carácter de "serviço público", o empréstimo regular era uma novidade para quem estava habituado a gastar os magros tostões que conseguia em banda desenhada, nos números avulsos do Mundo de Aventuras e do Cavaleiro Andante, onde as histórias ficavam sempre incompletas.
Com 12/13 anos de idade buscava leituras de vários géneros, mas fui quase imediatamente absorvido por Júlio Verne, em cujo mundo ficcional mergulhei, até esgotar a oferta proporcionada pela biblioteca. Não foi toda a obra do autor, mas grande parte dela foi certamente. Tratava-se da velha edição da Livraria Bertrand, colecção "Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos", de capa dura, verde e branca, ilustrada com imagens evocadoras das aventuras.
Claro que, sendo diversificada a oferta da carrinha, me interessei por outros temas e autores. A certa altura, a astronomia permitiu-me o contacto com estrelas, planetas, constelações e galáxias. Numa terra sem iluminação eléctrica (esta só viria em 1965), completar as leituras com a busca no céu das estrelas e das constelações era fácil e aliciante.
Mais tarde, quando necessitei de livros para terminar os meus estudos de fim do ensino liceal, foi à Gulbenkian que recorri, agora através de um pedido especial para o efeito. Lembro-me, entre outros, de um dicionário de Grego-Português. Uma vez mais, a Fundação resolveu a minha falta, com a componente de apoio social pois o empréstimo isentou meus pais da sua difícil e dispendiosa aquisição.
Nos tempos que correm, a realidade é bem diferente, e tudo isto pode parecer de somenos. Mas só quem viveu numa pequena vila centrifugada dos centros, sem computadores, nem telemóveis, mesmo sem televisão, sem transportes fáceis e sem muitas outras coisas – que era a Vila Nova de Milfontes das décadas de 1950 e 1960 – entenderá o que significava a vinda quinzenal da carrinha cinzenta. Na realidade, a biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian contribuiu, diria de forma decisiva, para a minha formação cultural e humana – como, aliás, aconteceu com milhares de crianças, jovens e adultos deste país. Talvez tenha sido esta a razão longínqua por que me empenhei, às vezes contra ventos e marés, na concretização da ideia, que há tempos vinha maturando, de uma biblioteca pública em Odemira, aquando da minha passagem pela vereação odemirense nos Anos 90 do século passado.



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