15h18 - quinta, 08/04/2021

Em Abril, águas mil?


António Martins Quaresma
Lentamente, as brandas chuvas de Janeiro e Fevereiro fizeram subir os baixos níveis das barragens de Corte Brique e Santa Clara, no concelho de Odemira. A de Santa Clara recobrou cerca de 10 pontos percentuais e atingiu os 51%, com 249.772.080 m3 de volume de água armazenado. Mas, no dia 12 de Março, quase um mês depois de ter cessado a chuva, os barrancos praticamente deixaram de correr e a recuperação parou. Logo depois, o nível da água da barragem iniciou nova descida. 1
Ao contrário do que sucedeu noutras bacias hidrográficas, como a do Guadiana (ver barragem de Alqueva), a meteorologia continuou pouco favorável nas do Mira e do Sado. Na realidade, houve precipitação considerável no país, mas na área do Alto Sado e do Alto Mira, não tanto2, situação agravada pela seca severa em que se encontrava. O regime pluvial, que se caracterizou pela baixa intensidade da precipitação, trouxe decerto vantagem na infiltração no solo, mas não foi favorável às "afluências" hídricas à barragem, como, em conversa com o autor desta crónica, frisou o Eng. Manuel Amaro.
Deste modo, a recuperação da barragem de Santa Clara, atendendo a que o Inverno terminou, é modesta. A menos que os meses de Abril e Maio venham acompanhados de chuva significativa, como é sua tradicional "obrigação", as coisas não se apresentam famosas.
Como se sabe, a água da barragem de Santa Clara tem três tipos de utilização: agrícola, industrial e doméstica. Obra de hidráulica agrícola, o seu primeiro emprego foi na agricultura, onde continua a ser gasta a maior parte da água. Entretanto, dando resposta à necessidade de laboração das minas Neves-Corvo, foi feita uma ligação a estas minas. Há ainda o abastecimento doméstico, um uso que tem crescido e que beneficia as freguesias do litoral. Segundo o presidente da ABM, saem, por ano, cerca de 55 milhões de metros cúbicos de água, que contemplam estes fins, bem como as perdas devidas por exemplo à evaporação.3
Recentemente, tem sido dada ênfase na comunicação social ao grande "desperdício" de água, lançada no mar no término dos canais de irrigação, mas nada de novo, pois trata-se de uma característica do sistema, construído há mais de 50 anos. A sua inversão exige largo investimento e maior consumo de energia.
Neste momento, a reserva de água está à cota 114, pouco mais ou menos, já a entrar no designado "volume morto", isto é, quando deixa de correr por gravidade e é necessário bombear para a extrair da barragem, aumentando o custo de exploração e, naturalmente, fazendo surgir preocupações.
Sem procurar apresentar soluções, para as quais não tenho competência técnica, parece-me que, em termos gerais, à adversa situação climática, onde se encontra o cerne do problema, a resposta terá de passar por um plano integrado e tecnologicamente apoiado, que contemple não só a eficiência do sistema de armazenamento e fornecimento, mas também a otimização e a racionalização dos consumos.
Contudo, a questão da água deve de ser vista a uma escala mais vasta. Na sequência de vários avisos lançados nos últimos anos, um recente relatório da ANP-WWF, entidades independentes dedicadas ao estudo dos impactos das mudanças do clima, divulgado por alguns órgãos de comunicação social, chama a atenção para um facto que, cada vez mais, parece indesmentível: na Península Ibérica, um território criticamente vulnerável às alterações climáticas, as fontes hídricas e os sistemas de reservatórios, canais e transvases encontram-se já sob stresse. Inclusive, o expediente de extrair águas subterrâneas, para compensar a sua falta à superfície, tem levado a exploração da água, quantas vezes incontrolada, ao seu "último reduto". 4
Os recursos aquíferos, explorados ao limite, ou quase, exigem aprimoramento na sua gestão, informado por nova visão que haja assimilado a problemática das alterações climáticas e a noção clara de que a água doce disponível é um bem essencial e é cada vez mais escasso.
Enquanto isso não acontece, o discurso sobre o assunto não pode deixar de ter pendor pessimista.



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