17h22 - quinta, 22/04/2021

Martin Trueb


Rui Graça
Nos primeiros anos do actual milénio o arquitecto Martin Trueb montava o seu cavalo lusitano no picadeiro do turismo rural "Naturarte". O facto de partilharmos o mesmo hobby no mesmo local, deu-me o privilégio de conversar com frequência com o Martin.

Se a arte secular da equitação portuguesa associada à notável genética do cavalo lusitano dava facilmente para um livro de crónicas, a nossa conversa mais regularmente derivava para a arquitectura regional, mais concretamente para a arquitectura em taipa, que na altura ainda estava em fase de "reinvenção". Era uma descoberta verdadeiramente apaixonante para quem teve o privilégio de a viver.

Eu vejo a casa do Martin, parcialmente construída em taipa, como o coroar de um bairro, também desenhado pelo Martin, que é uma referência incontornável de qualidade urbanística em Vila Nova de Milfontes - a Cerca das Árvores.

A Cerca das Árvores, projecto de 1996, assumiu desde o inicio o compromisso de respeitar o espírito da arquitectura regional alentejana, mesmo que quase todas as casas tenham sido materializadas no sistema construtivo convencional, em tijolo e betão.

RG – A primeira pergunta que se impõe é, como é que um arquitecto suíço, formado na Suíça, chega ao Alentejo e automaticamente adota a linguagem da arquitectura regional como fio condutor dos teus projetos?
Já estava a trabalhar como arquiteto há dois anos na Suíça e na Alemanha, quando surgiu a oportunidade de planear um loteamento em Portugal. Vila Nova de Milfontes não era um lugar estranho pois, como filho de mãe portuguesa, habitualmente passávamos as férias de verão neste lugar idílico. O meu pai, também arquiteto, levava-nos em passeio pelos montados alentejanos à procura de paisagens e casas para pintar as suas aguarelas.
Talvez tenham sido essas excursões pelo concelho de Odemira, que despertaram a minha atenção para a arquitetura tradicional e sobretudo para as construções em taipa. No início dos anos 90, quando cheguei ao Alentejo, conheci os Arquitetos Henrique Schreck, Alexandre Bastos e a Teresa Beirão, referências incontornáveis e impulsionadores para a reutilização desta técnica de construção tradicional. Puseram-me em contacto com construtores locais de São Luís e Relíquias, que também eles estavam num processo de reavivar esta técnica, instruídos pelos Arquitetos, mas sobre tudo pelos mestres de obra de uma geração em que a utilização desta técnica era habitual.


RG – Se é clara a linguagem de arquitectura regional (com telhados com beirado à portuguesa, com recurso a elementos tradicionais como contrafortes, muitas vezes com barras de cor tradicional) há uma utilização desses elementos de tal maneira conseguida que quando estamos nas tuas obras sente-se invariavelmente actualidade. Qual o teu segredo para combinar essa linguagem regional com inovação?
Dito de forma simplificada, penso que a linguagem arquitetónica requer uma atualização constante, adaptando-a a exigências atuais de bem estar de conforto, cumprindo com as normas vigentes. A utilização de técnicas de construção tradicionais e o uso de materiais característicos desta região, podem ser encarados como um desafio para a aplicação em edifícios com uma expressão arquitetónica contemporânea, que resulta numa conjugação harmoniosa. Procuro nos meus projetos esta simbiose ao invés de reproduzir a típica arquitetura regional.
É a tendência que vejo nos Arquitetos recém formados pelas faculdades em Portugal. A adoção de uma linguagem arquitetónica contemporânea com a preocupação de integrar o objeto de uma forma harmoniosa com a envolvência existente.


RG – Um dos temas que temos falado recentemente diz respeito ao interesse de muitos proprietários por casas de arquitectura dita contemporânea (que muitas vezes se resume a coberturas planas e janelas de grandes dimensões). Este fenómeno, no entanto, tem estado infelizmente associado a integrações menos conseguidas e resultado de conjuntos menos harmoniosos. Essa má integração é reconhecida de forma generalizada, por exemplo, na expansão recente do Porto Covo… Que influência achas que o estudo e divulgação da arquitectura tradicional pode representar na aproximação da arquitectura contemporânea aos locais onde se inserem?
Fiz a minha formação na faculdade técnica em Zurique, na Suíça onde o ensinamento na arquitetura é muito orientado pela doutrina do Bauhaus e os exemplos dados pelos grandes nomes dos arquitetos que marcaram essa época crucial na história da arquitetura. Quanto à orientação de estilos, dada pelas faculdades de Arquitetura em Portugal, não vejo diferença significativa para o que me foi ensinado na Suíça.
A arquitetura contemporânea tem-me acompanhado no meu percurso profissional e sinto uma motivação de recorrer a essa expressão estética e adapta-la no contexto edificado. Como qualquer pessoa, sou um observador crítico sem jugar trabalhos realizados por colegas.
Acredito que há lugar para uma arquitetura moderna, mesmo nas vilas e aldeias desta região, desde que se enquadre de uma forma harmoniosa no contexto pré-existente.


RG – Talvez por a minha mulher ser austríaca, eu contacto com muitos estrangeiros na nossa região e testemunho que grande parte deles se interessa e valoriza a nossa arquitectura regional. Estou convencido que o Martin, como estrangeiro, também confirma este fenómeno. Na tua opinião, qual a razão para a nossa arquitectura, muitas vezes, brilhar mais nos olhos dos estrangeiros do que nos olhos portugueses?
Se falarmos da arquitetura regional, não partilho a opinião de que é mais valorizada pelos estrangeiros do que pelos Portugueses. Sinto um grande orgulho nos Portugueses, por tudo o que é próprio duma região e do país em geral. As tradições são tal forma marcadas no povo Português, que se identifica com a cultura em geral, como não vejo noutro país.
É verdade que tenho tido muitos clientes estrangeiros, que me procuram, possivelmente por eu falar a mesma língua e se sentirem por isso mais seguros para serem acompanhados na selva demasiado burocrática, para quem chega de fora. É natural que esses estrangeiros valorizem o que é típico deste país e desta região, porque é essa a motivação para se estabelecerem aqui.
Tenho observado, que a maior parte dos estrangeiros chega ao Alentejo com a vontade de se adaptarem aos hábitos locais e mesmo não conhecendo a taipa como material de construção, demostram abertura para a adoção desta técnica na realização das suas casas.
Observo que os clientes estrangeiros têm outras prioridades de conforto para as suas casas, como cuidados especiais para controlar a humidade ou o bom aquecimento com recurso a fontes renováveis.
Esta tendência e de forma crescente, verifico recentemente também nalguns Portugueses, sensibilizados por temas de cuidados ambientais, que se reflete numa aceitação de materiais de construção naturais e recicláveis, mesmo sabendo que esta opção se possa refletir num aumento do custo da obra.


RG – Precisamente quanto ao custo das obras, na tua qualidade de arquitecto mas também de suíço (os suíços são reconhecidamente sensíveis às questões económicas), que balanço fazes dos custos da taipa e como justificas o facto de muitos turismos rurais (da tua autoria lembro-me pelo menos de dois, o "Três Marias" do teu irmão e o "Gotas de Luar") optarem pela taipa nos seus negócios.
Na verdade, não vejo vantagem económica na utilização da taipa como material de construção. Esta técnica exige muita mão de obra que, como se sabe, tem vindo a aumentar de preço exponencialmente. Trata-se de uma construção morosa, tendo em conta todo trabalho da preparação da terra, o enchimento gradual dos taipais com a mistura de terra em camadas e com a compactação manual. A parede requer tempo de secagem, o que se reflete num prazo de execução da obra mais alargado.
Uma vez que as paredes em taipa têm uma maior espessura, comparando com a construção convencional de parede dupla de tijolo, estas paredes exteriores reduzem a área útil de construção, mesmo havendo benefícios em alguns concelhos que concedem um bónus de área bruta de construção para quem opte por esta técnica.
Na construção da taipa tradicional, as paredes tinham por regra 50cm de espessura. Hoje em dia, esta medida não cumpre as atuais normas de isolamento térmico. Há várias formas para resolver esta lacuna. No caso de se querer utilizar apenas taipa, será necessário, uma parede exterior com no mínimo 65cm de espessura para garantir o cumprimento com os requisitos normativos. Em alternativa é possível acrescentar à taipa um capoto de isolamento térmico, o que a meu ver descaracteriza a homogeneidade da parede exterior em terra como material puro e sustentável.

Fazendo contas aos custos da obra há vinte anos atrás, pode-se concluir que a utilização da terra com origem do local da obra, compensava o prazo alargado de execução e os custos acrescidos da mão de obra. Hoje em dia, uma obra em taipa excede o custo de construção, face a uma técnica convencional com paredes duplas e um isolamento térmico e acústico equivalente ao da taipa.

No entanto, acredito que uma construção em taipa pode ser economicamente vantajosa se for utilizada e exposta como imagem de uma exploração turística. É por via da estética da terra como elemento natural, por exemplo para um Turismo Rural, recorrendo a um material 100% reciclável, que se alcança a atenção do utilizador cada vez mais sensível à sustentabilidade de tudo que nos rodeia.



Conclusão
É evidente que a construção em taipa, outrora generalizada por todo o Alentejo, lamentavelmente é hoje uma forma de construção demasiado elitista. Pelo que o Martin disse esse elitismo pode estar relacionado com dois factores distintos: por outro lado alguma falta de informação sobre o possível equilíbrio entre a construção e o meio ambiente, natural e cultural, diria eu, por outro lado a nossa fraca capacidade económica perante uma técnica que viu aumentar os seus custos significativamente nos últimos anos.

Num Alentejo com uma crescente valorização do turismo, parece-me sempre pouco ambicioso não divulgar, incentivar e investir nas virtudes da nossa construção regional.

Quanto à importância da informação sobre possíveis formas mais sustentáveis de construção, obviamente que não posso estar mais de acordo. Acho mesmo que essa informação é tanto mais válida quanto mais transversal e sem tabus. Por isso mesmo não só ganharemos todos se conseguirmos envolver toda a comunidade nesta discussão, como ganharemos ainda mais se tivermos a capacidade de analisar criteriosamente os bons e maus exemplos, sem julgamentos, como diz o Martin, já que a arquitectura é uma área com fortes pressões económicas, sociais e políticas, mas assumindo aprender com a experiência, fazendo com que os erros não se repitam e que os bons exemplos façam escola.

Quando aos custos de construção, as exigências térmicas dos regulamentos em vigor, como o Martin bem explicou, têm estrangulado a construção em taipa pelas exigências que acarretam (apesar de ser assumido por vários engenheiros e investigadores que os critérios em vigor para o cálculo térmico não têm em conta as virtudes próprias da terra como material de construção: a sua inércia, a sua permeabilidade ao ar ou a sua capacidade de estabilizar a humidade relativa). Uma atenção especial à taipa ou mesmo um regime excepcional parece-me mais do que justo pela contribuição que essas construções podem representar na valorização das regiões onde se inserem.

Muitos portugueses não sabem mas, na segunda metade do século XX, Portugal teve um cavaleiro, o Nuno Oliveira, considerado um dos melhores cavaleiros do mundo. Este cavaleiro tem uma frase sua inscrita no picadeiro coberto da Golegã que acho bastante inspiradora, "se Deus me deu um talento deu-me com ele uma responsabilidade, montar e ensinar a montar como Deus quer". O mestre Nuno Oliveira acabou por passar grande parte da sua vida em França, país onde publicou a maioria dos seus livros, e acabou por morrer na Austrália, assumidamente por não sentir reconhecimento da sua arte no próprio país.

Há no entanto uma diferença entre a equitação e a arquitectura que nos deve fazer reflectir: Ao contrário da equitação, a arquitectura é uma arte que está indissociavelmente ligada ao território, ou seja, se não dermos valor às virtudes da nossa arquitectura, na nossa região, de certeza que elas não se vão manifestar em França ou na Austrália…












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