16h42 - quinta, 20/05/2021

Graça Jalles


Rui Graça
Conheci a Graça Jalles há cerca de 20 anos, tinha saído de Macau onde exerceu uma boa parte do seu percurso profissional. Estava a entrar ao serviço no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Se a Graça entrou no referido Parque Natural por questões de princípio, consta que foi também por questões de princípio que abandonou a respectiva instituição…

A Graça tinha adquirido uma propriedade perto duma margem do rio Mira e acabou por se dedicar ao desenvolvimento do seu fabuloso terreno, transportando para esse projecto todos os seus princípios e convicções ambientais.

A construção em taipa acabou por ser a opção mais natural! Num primeiro momento com a construção da habitação própria, uma obra de raiz, e num segundo momento pela recuperação de três construções muito antigas para uso turístico.

RG – Se a construção em taipa é extremamente versátil e personalizável, a tua casa acaba por ser um excelente exemplo disso mesmo, pela integração de um jardim de inverno, pela forma original das janelas, ou pelo volume solto em pedra no centro da construção. A casa integra uma influência oriental, como um reflexo da tua própria personalidade… Quais os princípios que pautaram a adaptação da arquitectura alentejana tradicional à tua vida?

GJ - A Casa foi concebida em primeiro lugar de forma a respeitar os valores tradicionais da arquitectura alentejana quer nos materiais quer na "forma". Apesar de não gostar de me referir a forma na Arquitectura ela é bem definida nessa arquitectura. Casas em terra que se desenvolvem sobre o comprido, de planta rectangular e cércea baixa. Situadas geralmente a meia encosta e com inúmeras divisões com portas para o exterior e que por vezes não se interligam no interior. Nas traseiras situa-se geralmente a arramada de cércea ainda mais baixa e cuja cobertura surge na continuação da cobertura da Casa principal originando uma curvatura muito subtil no todo da cobertura que relembra um pouco as coberturas das Casas que me habituei a ver no Oriente mas que neste caso é profundamente alentejano. É de uma beleza extraordinária e de uma harmonia perfeita com a natureza onde as curvas proliferam e o resultado final tão integrado na paisagem é ele próprio fruto da sabedoria do tempo que lhe moldou a "forma".
Estes valores tiveram de entrar em diálogo com o meu "eu" contemporâneo porque era a Casa onde ia viver. O Jardim de Inverno surgiu por ser uma ideia antiga e me poder proporcionar o que vivenciei algumas vezes no Oriente, particularmente nas Casa Tailandesas, em que o interior e o exterior da Casas se interligam harmoniosamente não se percebendo onde começa um e acaba o outro. Na distribuição do espaço interior procurei isso mesmo. Não existem portas e o espaço flui de umas divisões para as outras tirando partido também do desnível do terreno.
A fonte de calor que este Jardim de Inverno iria provocar dentro da Casa particularmente nos meses de Verão também não seria problema para mim e até uma necessidade. Em Macau nos meses mais quentes a humidade poderia ir até quase aos 100% com temperaturas acima dos 30º. Adaptei-me bem a este clima e precisava dele aqui.
Colocava-se a questão de passar a haver uma contradição em termos energéticos e esta fonte de calor tirar a eficácia, particularmente no Verão, da construção em taipa que se pauta por ambientes frescos dentro de Casa quando lá fora o calor aperta e uma humidade saudável e constante dentro da mesma. Era um risco que eu estava disposta a correr e cujo resultado iria assumir.
Quis também recriar na íntegra os muros antigos de xisto existentes nas construções tradicionais utilizando-os quer nas paredes exteriores quer transportando-os para o interior tentando assim obter a tal harmonia entre o interior e o exterior da Casa acima referida.
A forma original das janelas surgiu naturalmente por se situarem lado a lado do local da parede onde estava prevista uma lareira ou chupão alentejano, o qual acabou por não ser construído por falta de verbas. Também eram sinal de alguma irreverência. Hoje penso que já não construirei o chupão assumindo-o mais como um erro de projecto mas fico-me com a irreverência não deixando tal como está de fazer jus à tal linearidade e simplicidade das fachadas dos Montes Alentejanos.
Por último e não me querendo alongar nem fugir à tua questão é importante referir o seguinte. O Projecto desta Casa foi concebido no princípio do milénio numa altura muito dolorosa da minha vida e de integração num ambiente completamente novo já que tinha transitado directamente de Macau, onde vivi 10 anos e de onde saí em 1998, para Odemira mais precisamente para os Troviscais, por opção pessoal e pela natureza. Para além do processo de integração num País que eu já não conhecia e numa realidade habitacional nova na minha vida, já que sou originariamente de Lisboa, o ambiente era hostil com excepção da comunidade local autóctone mais velha a qual actualmente já quase toda partiu e que com quem partilhava os mesmos valores de vida.
Acredito que nas opções de concepção desta casa apenas uma pequena parte corresponda a uma consciência racional e egoísta no bom sentido do termo, daquilo a que me propus.
O ato criativo é sempre doloroso mas também nos abre ao sobrenatural e a respostas que vão para além de nós mesmos e por outro lado nos põe em contacto com o nosso eu mais profundo. Portanto a angústia vivida na altura, porque enfrentada e não mascarada, foi um ónus e um bónus no processo criativo desta casa. Talvez por isso ainda hoje ela me surpreenda e talvez por isso o ter sido nomeada num concurso público de obras arquitectónicas.



RG – É muito curioso que um projecto como o da tua casa, onde se destaca imediatamente a taipa, tenha recebido uma menção honrosa no concurso que referiste, precisamente, sobre a utilização da pedra na arquitectura. Que critérios usaste na relação da taipa com outros materiais.

GJ - Os muros de xisto surgiram, primeiro porque tinha muito xisto na propriedade, depois porque como referi acima queria recriar os muros antigos alentejanos em xisto com 50 ou 60cm de espessura, com pedras escolhidas e moladas pelo artesão e argamassas de cal e terra. Queria proporcionar a tal relação entre o exterior e o interior da Casa e a sua utilização também num espaço interior iria contribuir para essa integração. A Casa encontra-se bastante isolada mas o caminho público passa perto. Os muros de xisto funcionavam como paredes dum forte que permitiam até pela sua altura uma visibilidade de dentro para fora e não o contrário. Houve aliás a preocupação nesta fachada da Casa de quase não colocar vãos de portas ou janelas. A Taipa e o xisto têm uma simbiose forte e natural. Não era difícil utilizar ambos os materiais. As argamassas eram também de terra e cal. No fundo era recriar a natureza moldando-a diferentemente. Queria experimentar de tudo um pouco e por isso construí também as paredes interiores menos espessas em adobe feito por mim e por uma vizinha local, Bárbara, com molde construído por outro vizinho, Ti Brissos, ambos já falecidos.

RG – Quando descemos da tua casa para a várzea, que faz ligação ao rio Mira, entramos numa área onde se sente a natureza em estado puro, a proximidade ao rio e à água faz explodir a biodiversidade. Os cheiros, as cores e os sons fazem-nos sentir em espaço sagrado. Neste cenário encontramos três casinhas em taipa que aparecem como se sempre lá estivessem. Eu sei (cheguei a vê-las em ruínas numa vistoria camarária) que as casinhas foram alvo de uma reabilitação tua, sendo agora pequenas unidades turísticas. Podes explicar os critérios que utilizaste na reconstrução numa área tão sensível?

GJ – Sim as Casas apropriaram-se daquele espaço. Já estavam ali há alguns anos, construídas pelo antigo proprietário, Ti Gracindo. Estavam em ruínas e quando deixei o Parque Natural teria de ter uma fonte de subsistência e surgiu a ideia de as recuperar.
Comecei pela Casa da Adega onde o antigo proprietário fazia vinho. quatro anos depois recuperei a Casa do Tanque, uma antiga arrecadação e por último a Casa do Pomar um antigo abrigo de animais. As três constituem actualmente o Turismo Rural Casas da Cerca.
É um espaço místico e muito peculiar já que se situa num "corgo" em alentejano local ou córrego em bom português. É um espaço naturalmente confinado e donde se tem acesso ao Rio que fica logo ali, a 1,5km de distância.
Digamos que as Casas acompanharam o meu percurso evolutivo como pessoa durante estes 22 anos.
O objectivo foi sempre o de não deturpar os valores arquitectónicos das mesmas e acima de tudo preservar os valores de vida que representavam.
É preciso pensar que por detrás de reconstruções de casas em ruínas nesta zona estão histórias antigas de vidas vividas e sofridas. Não é fácil viver no Alentejo antes como agora. Não é por acaso que o Alentejano é orgulhoso. A solidão aperta e a fome também. Daí a nobreza de carácter de quem sobreviveu e que tantas vezes detectei na postura desta gente presente inevitavelmente na sua postura corporal e no seu olhar. As Casas, hoje ruínas, em que viveram reflectem isso mesmo. Numa recuperação terá de necessariamente de se ter respeito por esses valores e conferir-lhes dignidade enfatizando-os através da abordagem arquitectónica e ajeitando-lhe a "roupagem". Foram estes princípios que me guiaram na reconstrução das Casas tendo em mente o seu uso final de Turismo Rural e um respeito pela natureza presente também nos materiais utilizados.
Todas as Casas tinham a sua própria identidade. A Casa da Adega, a primeira logo à entrada com 2 pisos impunha-se por si só. A Casa do Tanque na outra ponta em cima de um pedestal e apesar da sua pequenez e pela sua pequenez também brilhava. A Casa do Pomar situada no meio destas duas foi a mais difícil de conceber no processo de reconstrução. Era preciso que não tirasse identidade nem força às outras uma vez que estava muito próxima das mesmas, mas que se afirmasse de outra forma, digamos que teria de ser mais discreta. Assim optei por reconstruí-la com uma cércea ligeiramente mais baixa que a Casa do Tanque localizada imediatamente a seguir, e optei também por não abrir vãos de janela nas paredes exteriores. Abri antes na cobertura. Depois a natureza encarregar-se-ia de a revestir exteriormente de vegetação. Seria uma Casa/Abrigo. Das três Casas esta é a mais profunda e a que se identifica mais com o local onde está situada. Remete-nos para o transcendente onde a entrada de luz na cobertura é um pequeno sinal e obriga-nos a ficar no escuro, sem distracções do exterior, onde só o essencial luze. É quanto a mim também a que consegue mais empatia com o modo de vida dos alentejanos de uma geração que começou já a desaparecer mas cujo legado é necessário e imperativo preservar.


Conclusão:
Muitos leitores provavelmente não sabem mas até 1970 (fora as raras excepções das sedes de concelho), não havia qualquer condicionante ou imposição a quem quisesse construir, fosse como fosse! Esta realidade hoje em dia pode parecer-nos pura ficção quando, por exemplo, abrir uma pequena janela numa casa de banho num monte isolado exige um processo de licenciamento regularmente com dezenas e dezenas de páginas…

Se a liberdade absoluta de construção nos pode parecer incrível e nos pode fazer especular sobre o que se faria hoje perante tal liberdade, a verdade é que os nossos antecessores deixaram-nos um Alentejo absolutamente preservado e lindo, ninguém o pode negar!

É um facto que as casas antigas da região, de uma forma generalizada, eram pobres e a grande maioria estava longe de se poder considerar habitação condigna nos padrões atuais, o que para muita gente responde à preservação da paisagem. No entanto, ao contrário do que acontecia antigamente, tempos de grande privação que a Graça Jalles bem retractou, hoje em dia a maioria das pessoas, que felizmente já tem tudo o que precisa, também tem quase tudo o que não precisa… O drama hoje assenta na insustentabilidade do nosso estilo de vida, de tal maneira que até as crianças já nos chamam a atenção do flagelo ambiental em curso.

A vida era realmente mais dura antigamente no Alentejo, por isso mesmo, as casas antigas eram tão criteriosas: no local de implantação, predominantemente a meia encosta pela temperatura relativa mais favorável; na exposição que adoptavam, predominantemente a Nascente/Sul para protecção dos ventos dominantes e claro, nos materiais que eram quase exclusivamente locais porque os recursos (transporte e produção) eram muito escassos. O conhecimento dos terrenos, trabalhados de sol a sol, era profundo e era garantia da correta localização e proporção das casas que se construíam…

Em profundo contraste com a abordagem que reinou até aos anos 70, estamos a assistir a um fenómeno no nosso Alentejo que tende a alastrar como uma praga. Falo das casas de madeira, contentores, caravanas e afins, para mim as casas das três mentiras: 1 – Ecológicas - na maioria dos casos estas construções vão transformar-se em lixo. Mesmo as casas em madeira muito dificilmente resistiram muitos anos com as diferenças de humidade tão significativas do Alentejo (ao contrário do que se passa por exemplo na Tailândia onde a alta humidade relativa constante, que a Graça aprecia, as preserva) 2 – Dispensam licenciamento - Eu diria mesmo que o seu licenciamento é mais difícil do que o de uma casa convencional porque, por norma não se enquadram nos Regulamentos Municipais que definem as normas construtivas de cada concelho (apenas o facto de se instalarem rapidamente faz com que só tarde sejam detectadas as irregularidades chegando normalmente os problemas aos donos só com o tempo)
3 - Permitem melhor contacto com a natureza - nem física nem visualmente. Muitas delas ficam literalmente a flutuar, assentes em pilarinhos ou vigas sobre um corte a direito no terreno e visualmente são objectos estranhos na paisagem, ainda mais estranhos na proximidade de outras casas porque são diametralmente opostas à cultura construtiva que nos caracteriza.

No momento em que escrevo estas linhas o país toma consciência do fenómeno migratório em curso pela necessidade de mão-de-obra, em grande quantidade e baixo custo, para as colheitas nas novas explorações agrícolas do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. A população nestas regiões vai seguramente subir aproximando-se dos níveis que se verificaram antes de 1970, antes dos êxodos para o estrangeiro e para as cidades. Seria assim tão absurdo aproximar também a construção às técnicas dessa época?









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