12h48 - quinta, 03/06/2021

Encruzilhada


António Martins Quaresma
1. Levanta-se um tumulto de vírus oportunistas, em infeção de televisão. Perora, doutrinário, desnecessário e partidário, o bastonário; palavreia sem peia nem ideia, pra plateia e pra alcateia, a chaga do Chega. Que estamos em feroz ditadura. Estatal. Que se atropela a sacratíssima propriedade. Privada. Que donos de barracas sazonais, e nada mais, em fino e falido eco resort, são proprietários especiais, com ampliado e gritado direito a vizinhança selecta.
Decerto precisava-se de uma cerca, bem sanitária, mas para meter dentro este ramalhete de frivolidades. Ou pelo menos uma quarentena de media, que dê descanso ao pobre nativo, farto, pelos cabelos, de ver Odemira televisionada e mal retratada. Entretanto, como é habitual, olha o basbaque para o ecrã e vai ensopando do visco que dele jorra, acrítico porque não lhe é possível mais.

2. Escreveu uma sábia senhora, autora de excelente obra literária, que os lugares belos correm riscos acrescidos de virem a ser estragados pela ação humana. Quando isto li, o Litoral Alentejano estava sob pressão. Era o complexo portuário e industrial de Sines, com as suas poluidoras "indústrias de base" e com a dramática intrusão sobre uma das belas baías do país. Era o preocupante crescimento turístico desordenado, mais a sul, onde sobressaía Milfontes, inclusive com um, hoje impensável, campismo selvagem derramado sobre a área dunar da foz do Mira. Para completar o panorama, chegou a aventar-se a instalação, aqui, de uma central nuclear, quando o respetivo lobby procurava seguir esse rumo para produção de energia enérgica em Portugal. Corriam as décadas de 70 e 80 do século passado.

3. Entrementes, foi criado o Perímetro de Rega do Mira, destinado a converter os (quase) estéreis areais da charneca, entre a margem esquerda do rio Mira e um pouco além do de Odeceixe, em terra passível de produção agrícola. Alguns anos mais tarde, foi decretada a Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, pouco depois convertida em Parque Natural, uma longa faixa litoral que vai do sul de Sines até Burgau, no Algarve, englobando, na sua parte norte, o perímetro de rega.
A primeira incluía-se no Plano de Rega do Alentejo, lançado em 1957, que pretendia ultrapassar as antigas limitações da agricultura de sequeiro alentejana, e que no rio Mira se baseou na barragem de Santa Clara, inaugurada em 1968. Já a criação da Área de Paisagem Protegida/Parque Natural teve por base a reconhecida importância paisagística e biológica da Costa Sudoeste portuguesa, objeto de algumas publicações, numa altura em que se "descobriam" as suas virtudes naturais e que estas eram valorizadas .

4. O tempo passou e, se esquecermos os mega projectos de Aivados, Pousadas Novas e Vila Formosa, ainda que imóveis em banho-maria, mais os clandestinos de Milfontes, o regime de Parque terá conseguido alguma contenção na ocupação urbana do território, o grande cuidado de então. Já com a agricultura, ela evoluiu, desde os iniciais prados para bovinos, o arroz e o tomate e a agroindústria, até à irrupção aparatosa do playboy francês Thierry Roussel, que, aberta a torneira do financiamento criado à sua conveniência, reverenciado por cavacos e quejandos, veio aspergir malefícios e mostrar olímpico desprezo pelas regras em vigor. Para repentinamente desaparecer no meio de enorme espalhafato televisivo de um inventado atentado à sua vida, quando as coisas se complicaram para ele.

5. O mais recente e animado capítulo desta história não o vou contar. Ele tem andado nas bocas do mundo. E contém pouco edificantes episódios como aquele com que iniciei esta crónica. É verdade que se trata de um incidente marginal, mas ele mostra a complexidade que a situação assumiu, conflitual em diversos planos, na qual se tornou clara a clivagem entre duas visões sobre o futuro do território da Charneca de Odemira. No meio, a chegada de numerosos imigrantes orientais, que, além da falada questão do alojamento, desencadeou ruins paixões xenófobo-racistas.
Está-se numa encruzilhada. O caminho a seguir ganharia em ser clarificado, mas não, naturalmente, por critérios cavernícolas, do tipo CAP. O mais sensato, parece-me, é um percurso pactuado. Pacto que, é lógico, teria de incluir a avaliação sistemática de possíveis repercussões ambientais da actividade económica. Mas não sei se esse concerto será exequível – ou mesmo desejado.



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