16h06 - quinta, 16/09/2021

Milfontes: breves notas sobre toponímia urbana


António Martins Quaresma
Não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto. Desta feita, o texto é sugerido por uma distinção que, por proposta da Comissão de Toponímia, a autarquia entendeu conferir-me – que eu não pedi, nem desejei, mas que, apesar do meu constrangimento, só pode merecer a minha gratidão. No meio de muitas mensagens simpáticas, houve alguma crítica de Facebook (onde havia de ser?), que oscilou entre a acusação de encenação eleitoral e a defesa da intocabilidade de um topónimo urbano. Enfim, nada de especial, que o Facebook é isto mesmo. Porém, o desconhecimento da história local e, mesmo, uma triste falha de memória social, seguramente mais generalizada do que a que ficou patenteada nesses comentários, é a razão das notas seguintes sobre dois dos espaços emblemáticos da parte antiga da vila. Começo pelo Largo do Rossio, que agora mudou de nome, e, na próxima crónica, tratarei do sítio da Barbacã / Largo Brito Pais.
Como se sabe, os rossios eram logradouros, junto das povoações, para uso comum dos moradores. Eles estabeleciam a transição entre a parte urbana e o espaço rural envolvente. Aliás, rossios podiam, numa escala micro, designar pequenos espaços abertos junto das casas rurais, os "montes". Em Milfontes, ele está indicado em planta da vila, de 1790, assinada por J. G. de Chermont, tomando um pedaço do antigo Coito Pequeno.
Ao longo do século XIX, o crescimento da vila ocupou este espaço, deixando no centro um largo de forma sensivelmente trapezoidal, que herdou informalmente o nome de Rossio. Nos anos de 1940, novas funções, mais urbanas, deslocaram-se para este largo, antes periférico, convertendo-o num dos pontos centrais da vila, e o termo rossio foi sendo esquecido. Vejamos resumidamente como as coisas se passaram.
A velha Praça da vila, próxima da casa da extinta Câmara, acanhada, mas social e comercialmente distinta, foi, no final da década de 1940, transferida para este espaço, mais amplo e com água fornecida por um poço, que assumiu a designação de Praça Nova, ou simplesmente de Praça. Foi dotada de bancas de madeira para produtos hortícolas e uma bancada em betão para o pescado, com o competente sino para chamar o povo.
Um pouco antes, inaugurara-se aqui uma nova estação dos CTT, importante e atrativo foco, numa altura em que boa parte do contacto com o exterior se fazia através dela. E, pouco tempo depois, também a Casa do Povo, com o seu posto médico e serviço do Registo Civil, se instalou no local. Abriram igualmente, na intercessão com a Rua Sarmento de Beires, um talho e uma taberna, acentuando o seu papel comercial e social.
Entretanto, o Largo já recebera o nome oficial de Marechal Carmona, o primeiro Presidente da República do regime político que se instalara em Portugal, após o golpe militar de 28 de maio de 1926, nome que permaneceu por algumas dezenas de anos.
A multifuncionalidade do Largo haveria de influenciar a toponímia prática da população, sendo os nomes de Praça e Largo da Estação ou do Correio os mais utilizados, até algum tempo depois de terem cessado as funções respetivas, concomitantemente com a designação oficial referida.
Como reapareceu o nome de Rossio? A resposta resume-se em duas linhas: a historiografia publicada a partir da década de 1980 fê-lo ressurgir das "cinzas" e, autenticamente, promoveu-o, acabando por ser aprovado pela autarquia sob a forma algo redundante de Largo do Rossio.
Modificações da designação dos espaços urbanos, espontaneamente ou por intervenção dos poderes públicos, sempre as houve. No ano de 1924, para homenagear os aviadores que tinham terminado a viagem aérea Portugal-Macau, os seus nomes entraram na toponímia urbana de Odemira e Milfontes, substituindo anteriores denominações. Dois exemplos: em Odemira, o Poço Novo converteu-se em Largo Brito Pais e, em Milfontes, a Rua do Norte recebeu o nome Rua Manuel Gouveia. Noutros casos, como a Rua Vicente Ferreira, aberta no início do século XX, com os nomes informais de Rua Nova ou Rua dos Marinheiros, tenho pena das mudanças, mas também estas contam as suas histórias.
Conquanto um percurso pela toponímia histórica seja quase interminável, concluo porque a crónica vai longa e começo a afastar-me do estrito objeto dela.



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