15h33 - quarta, 22/12/2021

A terra é tudo, a semente não é nada!


Fernando Almeida
Minha mãe, sempre preocupada com o futuro dos filhos, ensinava lições que serviriam como guia para a vida. No que respeita à saúde reproduzia o ditado popular "A terra é tudo, a semente não é nada". Explicava ela que as mais variadas sementes de erva andam espalhadas um tanto por todo o lado, mas elas só nascem e prosperam nos locais que lhes são favoráveis. Nos terrenos frescos e fundos nascem umas, nas serras mais secas e pedregosas crescem outras, nas umbrias prosperam ainda outras… e sabe-se que não é por haver semente que a planta se vai desenvolver se o meio não lhe for favorável.
Servia o ditado para falar de saúde. Explicava minha mãe que numa carruagem de comboio ou metropolitano, num autocarro de passageiros ou mesmo numa aula ou num cinema, será sempre provável que existam diversos vírus e bactérias patogénicas disseminados um tanto por todo o lado. No entanto, enquanto alguns dos utilizadores desses espaços se manterão saudáveis, outros ficarão doentes, e para outros ainda a doença poderá mesmo ser fatal. A semente está lá, a todos chega, mas só prospera onde a "terra o permite".
Usava minha mãe esta imagem para exaltar a importância de seguir um modo de vida saudável como primeiro e essencial preventivo contra a maioria das maleitas. Princípios básicos como dormir bem e durante a noite, comer de forma equilibrada e rica em frutas e vegetais frescos, manter uma atividade física regular que contrarie o sedentarismo a que a vida muitas vezes nos conduz, e além de tudo isso, cultivar um espírito positivo evitando as influências nefastas dos negativistas e deprimidos eram, segundo ela, chave para uma vida saudável. Afinal coisas tão simples, como comer, dormir, mexer e viver alegre podiam ser o segredo para evitar muitos problemas de saúde. Quem tenha já vivido o bastante para tirar da vida conhecimento, saberá que esta receita, embora simples e barata, é um preventivo excelente para evitar muitas doenças.
Lembro-me desta lição de vida da minha mãe muitas vezes, e ainda mais nestes tempos de pandemia em que o tema central das notícias e das conversas anda em torno da saúde, ou melhor, da doença.
Não há dia nenhum em que não nos falem de internamentos, cuidados intensivos, mortes, vacinas… Por me lembrar dos ensinamentos dos mais velhos, da minha própria experiência de vida, mas também dos bons princípios da medicina preventiva, estranho o tão generalizado e absoluto silêncio sobre esta matéria na comunicação social.
Vêm os virologistas mais afamados, os responsáveis governamentais, os dirigentes das ordens profissionais, os especialistas na saúde dos mais velhos, dos mais novos, dos de meia-idade, e todos falam de vacinas, em primeira dose, em segunda dose, em reforço, em dose reduzida para crianças, em vacinas anuais que possivelmente virão no futuro, e ninguém nos fala da importância de manter um modo de vida saudável como preventivo para a "covid" ou para muitas outras doenças que entopem os hospitais e que transtornam os serviços de saúde e transformam a comparticipação pública em medicamentos num sorvedouro de recursos do país sem paralelo.
E cada vez mais estranho que nenhum dos intervenientes neste espetáculo mediático em que se transformou a pandemia tenha um tempinho para nos dizer as coisas básicas que todos eles sabem são de facto da maior importância para a saúde pública e, consequentemente para o bem-estar dos portugueses, e para o próprio sucesso económico do país. Não acredito que todos estes especialistas das mais diversas áreas da saúde, e todos os responsáveis pelo funcionamento da máquina do estado, não concordem que um modo de vida saudável é da maior importância para o sucesso do sistema de saúde do país, e também para reduzir os impactos negativos da pandemia…
Se assim é, porque não se tem aproveitado estes anos em que a comunidade está preocupada com a saúde e altamente motivada para fazer o que for necessário para a defender, para sensibilizar as pessoas para as boas práticas de vida que ajudam a prevenir a doença?
É claro que não sou "negacionista", e também não quero entrar em abordagens "conspirativas", mas a dúvida sobre as verdadeiras motivações que levam, por exemplo, a querer à viva força vacinar as crianças mais novas (que como se sabe são praticamente imunes à "covid" e que mesmo vacinadas continuarão a ser portadoras e transmissoras do vírus), e a ausência de referências à importância de criar ou desenvolver modos de vida saudáveis, dão que pensar.
Apetece pensar que, se por cada quilómetro andado a pé por cada um de nós, as empresas farmacêuticas recebessem alguns cêntimos, haveria muita gente a recomendar as caminhadas como preventivo para as doenças no geral e para a Covid em particular; que se por cada peça de fruta fresca ou de legumes crus que nós consumíssemos caíssem uns cêntimos para patrocinar congressos sobre saúde num qualquer destino tropical, haveria muitos outros a recomendar uma alimentação cuidada; que se por cada noite de sono bem dormida e regeneradora que nós dormimos, pingassem alguns trocados para melhorar os rendimentos de clínicas e hospitais privados, não faltariam as recomendações para que se respeitasse o ritmo do sol e se evitasse os jogos de vídeo noite dentro; e mesmo, se a boa disposição e felicidade coletiva revertesse em dinheiro para os bolsos de alguns dos que pela televisão nos entram em casa todos os dias, aposto que gastariam muito tempo de antena a contar anedotas para nos fazer sorrir…
Eu, que não ganho nada com a doença dos outros, mas que a todos desejo saúde, lembro os bons princípios que minha mãe me ensinou: façam uma vida saudável e estarão mais defendidos para os "covides" todos que por aí há. Não se esqueçam, "A terra é tudo, a semente não é nada".



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