15h26 - quinta, 28/07/2022

Em busca do tempo perdido


António Martins Quaresma
Este texto tem, claro está, muito pouco a ver com a famosa e extensa obra literária de Marcel Proust, À la Recherche du Temps Perdu. Porém, é de um tempo perdido que vou sumariamente falar, apoiado na minha experiência dentro de um grupo de estudo do património edificado (constituído por Joana Guerreiro da Silva, arquiteta; Jorge Vilhena e Joel Rodrigues, arqueólogos; e este vosso criado, talvez historiador), que, sob incumbência municipal, tem, neste momento, a missão do seu levantamento.
Uma digressão pelo interior do concelho de Odemira, em busca dos antigos montes, oferece à vista um desfile de ruínas que oscilam entre os edifícios abandonados em início de deterioração e os escombros quase informes. Há excepções: encontramos montes ainda "vivos", uns simplesmente habitados, como o da Faúza ou o das Pretas, outros que se mantêm centros de atividade económica, como os casos do Bem Casado, do Saquenibaque ou da Torrinha. Existem também alguns adquiridos por recém-chegados, "neo-rurais" frequentemente provenientes de países do Centro e Norte da Europa, que os adaptam às suas necessidades da forma que podem e sabem, geralmente em ruptura com a tradição arquitetónica local.
Esta é a realidade de um território cuja secular ocupação rural, em que a cerealicultura extensiva constituiu o esteio fundamental, se extinguiu, por razões que não vêm ao caso, levando ao abandono do campo pela numerosa população dispersa e à consequente falta de conservação da estrutura física que lhe estava associada.
O contacto com os moradores ainda presentes, frequentemente não os proprietários, ausentes, mas os rendeiros, gente genuína com quem o diálogo é aberto e agradável, relevam os problemas que os afligem, em particular o da falta de água para as atividades agrícola e pecuária. Mesmo no vale do Mira, a montante da vila de Odemira, onde a água já é doce, o rio, reduzido a pegos esparsos, de difícil acesso, é insuficiente para satisfazer as necessidades em especial do gado, como na Torrinha. Tudo se agravou com o corte da água fornecida pela barragem de Santa Clara, agora praticamente reservada às explorações da Charneca, pertencentes aos associados da Associação de Beneficiários do Mira. Na realidade, a escassez pluviométrica dos últimos anos tem levado a região ao stress hídrico. E, como é frequente, em "casa onde não há pão, toda a gente ralha..."
Um dos lugares especiais que visitámos, onde, há anos, tinha estado com o saudoso Joaquim Maurício Rosa, é o chamado "Chalé", vivenda existente na freguesia de Vale de Santiago, não longe do Monte Velho, às coordenadas 37º 47`11´´ N; 8º 25´ 28´´ O. Trata-se de um edifício, já muito danificado, inclusive evidenciando avarias estruturais, com uma arquitctura incomum no concelho de Odemira, projeto decerto da autoria de arquiteto de Lisboa, encomendado, por volta de 1930, pelo casal Maria do Céu Brito Pais e seu marido, o capitão Jardim. Enquadra-se esteticamente no movimento chamado "Casa Portuguesa", estilização de uma alegada "casa tradicional", de que foi maior cultor o arquiteto Raul Lino. É isso que mostram os beirados curvos nas frontarias, os alpendres com pilares, as escadas exteriores, os arcos, como se vê na fotografia tirada durante a recente visita. Nas imediações, talvez mais tardias, ruínas de algumas dependências de função pecuária adicionam-lhe uma certa componente rural.
Os proprietários não residiram na moradia por muito tempo, decerto devido a questões da vida do casal. Após a morte precoce do marido, Maria do Céu vendeu a casa a sua irmã Maria Júlia, moradora no Monte Velho. Uma pequena construção aparentemente destinada a capela lembra uma prática muito conhecida desta: a de edificação de lugares de culto nas suas propriedades.
Este prédio integrou, mais tarde, o conjunto de bens com que D.ª Maria Júlia dotou a Fundação Brito Pais, que criou, mas, após a sua morte, a fundação acabou extinta e os bens entregues à Misericórdia de Odemira, a quem hoje o edifício pertence. Curiosamente, o facto de Maria Júlia e Maria do Céu serem irmãs de António Jacinto de Brito Pais, o aviador ligado à viagem aérea Portugal-Macau (1924), gerou a confusão, propalada na Internet ad nauseam, de que a casa pertencera a António Jacinto, o que efetivamente nunca se verificou.
Não sendo credível a sua recuperação e reutilização, o "Chalé" queda-se, na paisagem, como curiosidade, isolado, quase irreal, e fotografado e grafitado por cicloturistas. Nós, porém, os que acedemos a algum conhecimento sobre o sítio talvez ainda possamos "ouvir" as vozes dos que sonharam um dia com uma vida bucólica neste pedaço de planície meridional, ou mesmo vislumbrar o vulto simpático da jovem Maria do Céu.



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