15h26 - quinta, 01/09/2022

A nova escola que se impõe


Fernando Almeida
Havia uma foto de um Equidna, bichinho de focinho comprido e espinhos aguçados da Austrália, num canto do livro de Ciências da Natureza da minha juventude, e para mim era fascinante aquela pequena imagem a preto e branco, como uma janela aberta para um mundo distante, maravilhoso e inacessível. Os livros escolares eram muitas vezes isso, o acesso ao conhecimento dos temas mais diversos que satisfaziam a curiosidade dos espíritos mais irrequietos, e fonte única (ou quase) de informação para o sucesso nas atividades escolares.
Tive professores que, explorando esse fascínio do "livro adotado" (livro onde residia o conhecimento oficial e dado como imutável) o usavam nas aulas de forma exaustiva. As aulas limitavam-se à leitura do livro numa rotina fastidiosa e completamente antipedagógica: "página 32, número 4, leia"; e, minutos depois seguia-se: "Basta. Número 5, continue a leitura". Quando algum dos pequenos se atrevia a dizer que não tinha compreendido alguma coisa, a "mestra" limitava-se a mandar repetir a leitura. E era assim que, com o "livro adotado" e com a "velha mestra medieval", se passava o conhecimento. Claro está que os alunos, na falta de conseguirem compreender a maioria dos assuntos, se limitavam a decorar páginas e frases a eito. Claro está também que a avaliação se limitava à realização de testes escritos, com perguntas feitas à medida de respostas decoradas que se esperava os alunos conseguissem dar. No fim, tirando alguma subida ou descida de nota resultante das simpatias ou antipatias da "velha mestra", as classificações resultavam da média aritmética dos testes. Acho que no tempo presente essa situação, felizmente, só existe na memória dos mais velhos, como lembrança de uma escola quase como "madraça", senão pelos assuntos tratados, pelo menos pelos métodos usados. Professores assim, se hoje os houvesse, deveriam ser reformados compulsivamente a bem da saúde mental dos nossos filhos e do futuro do nosso povo.
Nesses tempos também havia professores a sério, envolvidos com os alunos como indivíduos singulares, que tentavam inovar os métodos pedagógicos, mas que para sua infelicidade se confrontavam com a inércia de um sistema que dificilmente conseguia acompanhar a evolução do mundo. Esses professores que tentavam melhorar e adaptar a escola ao mundo que começava a mudar depressa, eram por vezes desconsiderados pelos sisudos e distantes professores mais velhos e conservadores, e acabavam mesmo por ter problemas. Também os pais dos alunos desse tempo, fundamentalmente pouco letrados e nada atentos ao mundo e às necessidades que os filhos teriam no futuro, queriam era que o professor fosse o velho e caduco professor da repetição e da memória, e por tudo isso os professores, numa atitude prudente e de autodefesa, faziam o "mesmo de sempre". Essa conjuntura conduziu a um confrangedor atraso nos métodos pedagógicos e na vida de muitas escolas, que ainda hoje se paga.
Entretanto o mundo mudou profundamente e uma pequena fotografia a preto e branco de um animal desconhecido no canto de uma página de um livro cinzento já não fascina ninguém. Hoje, ao alcance de um "clic" estão filmes a cores cheios de movimento, som e vida, e um texto cinzentão descritivo a preencher a página do livro escolar não desperta curiosidade nem interesse de nenhum jovem. Hoje a informação e o conhecimento são bens comuns e acessíveis, e não, como antigamente, algo que só a escola podia dar como bem raro e precioso. Há na internet conferências excelentemente ilustradas, proferidas pelos melhores especialistas mundiais dos mais variados temas, há imagens, gráficos, textos aos milhares, e é só saber procurar e selecionar o que se quer. Em certas disciplinas o velho "livro adotado" resiste apenas por inércia, por interesses económicos das editoras, por dificuldade de alguns professores em se adaptarem ao uso de novos materiais e métodos, e por conservadorismo dos pais e dos próprios alunos, que muitas vezes continuam a encontrar na memorização de textos o conforto e a estabilidade que pretendem.
Mas o facto é que o mundo mudou mesmo e muito. O emprego para toda a vida, em que se repetia de forma imutável os mesmos gestos ou técnicas aprendidos na mocidade, acabou. Hoje a vida profissional quase sempre implica uma aprendizagem permanente: as máquinas mudam, os programas informáticos mudam, as técnicas mudam, até a "verdade" e o conhecimento mais ou menos "científico" muda, e tudo muda a uma velocidade cada vez mais estonteante. E a escola, sob pena de se manter desinteressante e obsoleta, tem que mudar, mesmo que isso seja temporariamente desconfortável para muitos dos atores da comunidade educativa. Felizmente, é o próprio Ministério da Educação que apela a essa mudança, a uma necessária e inadiável alteração de métodos pedagógicos, ao centrar as aprendizagens em conhecimentos fundamentais, em capacidades e atitudes e não, como antes, no elencar de definições de conceitos mais ou menos decorados.
Os nossos jovens de hoje, adultos de amanhã, vão precisar de competências que lhes permitam encontrar, compreender e integrar os novos conhecimentos de que necessitem a cada momento, e não de um corpo de conhecimentos decorados que com o tempo se esquecem ou caducam, porque o que é verdade e útil hoje, provavelmente já não o será amanhã. Também temos que deixar de pensar na escola como fator de diferenciação social, como o foi durante os últimos séculos, e olhar para ela como instrumento para conseguir uma sociedade mais equilibrada e desenvolvida. Mas será que seremos todos nós capazes de mudar ou vamos, mais uma vez, ficar para trás na corrida pelo desenvolvimento, em consequência da nossa incapacidade de adaptação à mudança?



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