10h52 - quinta, 15/06/2023

Memória


Fernando Fonseca
Quem somos? Quem somos radica sempre naquilo que fomos.
Como dizia o prof. Anselmo Borges (DN17Fev2012), cada um de nós só é quem é, na sua relação com os outros. Somos parte integrante e constituinte de um todo. A amálgama de cada indivíduo transportando em si a memória de quem foi, e de todos os outros que tendo vivido antes, contribuíram das mais diversas maneiras para sermos aquilo que somos hoje.
Assim, cada um de nós é, sem que ninguém especificamente no-lo tenha incumbido, o fiel depositário e ao mesmo tempo um mensageiro na maior parte dos casos inconscientemente, de factos, ideias e valores que constituem a nossa cultura. É isto que justifica o estudo da História nos seus diversos registos sempre complementares ainda que frequentemente adversos, pois é na diversidade, inclusive em contraversão, que se constrói a verdade histórica.
Esta, na sua versão escrita, reflete sempre o ponto de vista dos dominadores. Mesmo até quando refere os vencidos, fá-lo para exaltação dos vencedores.
Vista assim, a História escrita, não passa de um instrumento destinado a consolidar posições de domínio, ou para influenciar e suportar rumos para o devir, pelo menos quanto às intenções.
Mas para além dos que foram vencidos, sobre cuja derrota ou aniquilação assentam impérios, houve uma imensidade de grupos, povos e culturas que não foram contemplados pela visibilidade histórica, permanecendo na bruma dos tempos ou soterrados por acontecimentos de origem humana, ecológica ou geológica que levaram ao seu apagamento.
As "relativamente recentes" descobertas e identificação de gentes e povos, tal como a metódica investigação no-los tem revelado, mostram componentes da humanidade desconhecidos, mas não menos significativos para o conhecimento e, desse modo, revelam, enquanto espécie, quem fomos na aventura da evolução. Estas descobertas desmascaram, contra resistências religiosas e ideológicas, quanto o registo histórico tendencioso e sistematicamente seletivo, corresponde a uma "feira de vaidades" no que ao perfil da humanidade diz respeito, quando nos apresenta o homem como um produto acabado, uma criação perfeita, com os seus equipamentos "prontos a usar".
Em contrapartida, as ciências da Arqueologia, da Antropologia e da Genética, fazem emergir o Homem desde os períodos perdidos no tempo, quando começou a articular as características que o tornaram diferentes dos outros animais, iniciando a caminhada da nossa evolução. O "Homem do Fogo", o "Construtor de Jangadas", o "Domesticador de animais", o "Homem da Roda" e o "Homem dos Grafismos Significantes", todos eles que entenderam e colocaram progressivamente ao seu serviço, as leis da Natureza, primeiro empiricamente, e hoje no domínio da Quântica, são os construtores incógnitos do Homem Moderno.

Museus de Arqueologia
Os Museus de Arqueologia são, nesta perspetiva, os mais importantes museus do Homem, porque através deles somos informados do processo de construção que culmina na contemporaneidade. Enquanto todos os outros preciosos museus do mundo nos apresentam manifestações e conquistas parcelares criteriosamente sectorizadas da atividade humana, os museus de Arqueologia dão-nos a panorâmica de quem é, na verdade, a espécie humana. Revelam como nos temos modificado física e mentalmente através da dualidade corpo e artefacto.
As revelações do ADN evidenciam-nos o parentesco original e expõem-nos o panorama da evolução, desmistificam as "raças" e, no mesmo ato, eliminam os argumentos das pretensas superioridades, demonstrando o processo das migrações. Dizem-nos quem na verdade somos; uma família com origens e percursos mais ou menos comuns, que tendo seguindo diferentes rotas voltam a cruzar-se na actualidade.
Vivemos um reencontro de irmãos perdidos, ensaiamos processos de reconhecimento recíproco, reconhecemos nos outros os iguais, apesar das diferenças culturais geradas pela infinidade de condicionalismos ocorridos. É como se nos fosse proporcionada a oportunidade de reinventar a História e com o discernimento assim obtido, projetar novos futuros.
O que poderia haver de mais importante para o sentimento unificador do que o conhecimento das raízes consubstanciadas no conhecimento dos povos que desde antes ainda do Paleolítico e através de gerações e influências culturais sucessivas, deram origem ao povo português? Povo que, no contexto europeu, se caracteriza como raridade, pela correspondência linguística e cultural ao território ocupado e definido pelas fronteiras estáveis mais antigas da Europa? Mesmo diasporado pelos cinco continentes, este povo não esgotou a sua índole. Consciência identitária plurifacetada, que se entrevê no reencontro com o passado no nosso Museu Nacional de Arqueologia.
Para além do turismo cultural que o usufrui, o Museu disponibiliza todo o acervo não só à investigação pelos especialistas, mas também aos estudantes universitários, para além dos curiosos consumidores de cultura geral. Acresce a esta praxis a dinâmica do Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arqueologia, com atividades culturais, etnográficas e artísticas de diversas índoles, intercâmbio com outros países, com realce para a promoção de viagens aos lugares mediterrânicos mais significativos, no vasto território de origem das culturas que nos influenciaram tornando-nos quem somos.
O conhecimento de que somos feitos a partir de outros povos permite-nos entender como, partindo, os portugueses se misturaram com outros à volta do planeta, tornando o português um povo mundialista. Nesta perspetiva, um Museu de Arqueologia é um instrumento desmistificador das superioridades, um apaziguador das diferenças que conduziram à exploração de uns pelos outros e à destruição de nações por outras nações, genética e culturalmente.
A Humanidade deve o seu desenvolvimento à memória acumulada e transmitida sistematicamente desde os primórdios da evolução. Citando livremente Alexandre Herculano, poderemos construir o futuro sem cometer as asneiras do passado. Para isso, descobrindo quem fomos, saberemos quem somos. É a memória de quem somos, pela cultura de que nos constituímos, que nos dá a dignidade, mas não menos responsabilidade.
"Um povo sem memória, não existe" – disse alguém.



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