10h53 - quinta, 15/06/2023

A velha educação no novo mundo


Fernando Almeida
Em Portugal somos demasiado lentos a pensar e a agir, e mesmo quando se mete pelos olhos dentro que é urgente mudar, continuamos na indecisão permanente. Há sempre os que acham que "como está é que está bem", que tudo tem que ser como era no "seu tempo", ou no tempo dos "afonsinhos". Mas se, finalmente, depois de discussões, comissões, gabinetes, relatórios, estudos e projetos, se decide que realmente é necessário mudar alguma coisa, ainda vem um burocrata qualquer dizer que há um papel em falta ou fora de prazo… e lá volta tudo ao princípio. Por isso andamos há cinquenta anos para fazer um novo aeroporto e ainda não decidimos sequer onde pode ser feito… Entretanto, a China fez o novo aeroporto de Pequim, que é o maior e mais moderno aeroporto do mundo, em cinco anos. Há países que se desenvolvem e outros nem por isso…
No entanto, sabemos que o mundo está a mudar a uma velocidade inacreditável, e quem tenha dois dedos de testa saberá que essa mudança ainda se tornará mais rápida com o passar do tempo. Quem veja para lá da informação viciada e parcial que as TV's nos impingem, verá também que nesta corrida pelo progresso e desenvolvimento estamos a ser ultrapassados por dúzias de países do mundo, em particular da Ásia, que não andam com tretas e preconceitos de intelectuais noctívagos, mais preocupados em catalogar novos géneros humanos e a que casa de banho pode cada um deles aceder, que a resolver coisas realmente importantes para o desenvolvimento do país e do mundo.
Esta incapacidade de prever o futuro e procurar soluções por antecipação acontece a todos os níveis e é especialmente grave na Educação. No que respeita a Educação devia-se estar a preparar os jovens para o mundo do futuro e não, como tem acontecido, a prepará-los para um mundo extinto, cheio de conceitos inúteis e obsoletos. Há empregos em extinção: as máquinas estão cada vez mais a substituir os braços dos homens, e ainda bem, porque muitos dos trabalhos que criamos depois da revolução industrial são infernalmente repetitivos e quase desumanos, e ficam de facto melhor entregues a máquinas que nunca se cansam nem criam doenças musculares, deformações esqueléticas ou psicológicas. Mas não é só na área fabril e agrícola que as máquinas, cada vez mais sofisticadas e rigorosas, vão substituir as pessoas e, portanto, acabar com os velhos empregos e criar novos.
Polémica, porque é nova e porque retira o poder a quem tem feito da repetição de saberes uma arma económica e de prestígio social, a Inteligência Artificial, agora a dar os primeiros passos, será aprimorada a ponto de nos dar as respostas de que necessitarmos em muitíssimas situações. Não tardará muito para que quem queira construir uma casa nova não tenha que contratar um arquiteto conforme conhecemos atualmente. O mais certo é que introduza numa qualquer aplicação os dados daquilo que deseja – local, área coberta, número de pisos, de quartos, de casas de banho, etc., e obtenha pouco tempo depois uma mão cheia de propostas de casas, com diversos tipos de acabamentos, com projeto de engenharia e eletricidade incluído, orçamento recomendado… Os arquitetos tradicionais "a sério" ficarão ligados à criação de obras de exceção, tal como hoje coexistem as fábricas de camisas em série com os ateliers de alta-costura. É claro que os automóveis passarão a ter condução autónoma, que será mais segura (o veículo nunca tem sono nem bebe demais), e enquanto isso os passageiros transportados poderão fazer outras coisas. Os comboios serão usados para deslocações mais longas em velocidades acima dos mil quilómetros por hora em túneis despressurizados e os aviões comerciais poderão ser hipersónicos… E nós, ou melhor, os nossos filhos e netos, o que irão fazer?
Para mim, que sou professor, a questão é particularmente importante, porque sei que é meu dever preparar os alunos, não para o mundo do passado, nem sequer para o mundo atual, mas antes para o mundo que ainda não existe e em que eles vão viver dentro de alguns anos. O que deverão saber e ser capazes de fazer os que agora são crianças quando tiverem idade para trabalhar?
É claro que eu não estou totalmente seguro em relação a isso, mas algumas características que serão vantajosas podem ser dadas como certas. Sabemos que tudo o que as máquinas possam fazer melhor que os humanos será delas. Seja na indústria, seja na agricultura, seja no comércio e serviços, o desemprego será galopante, mas ficarão "nichos" especiais onde a massificação produtiva não conseguirá entrar ou não estará interessada em entrar. E haverá também empregos novos para os que controlam as mesmas máquinas que nos tiram os empregos velhos.
Conservem as sementes dos vossos avós, bem como o seu "saber fazer" a todos os níveis, porque o raro será certamente precioso; tudo o que as mãos humanas conseguirem fazer de diferente, o particular, o exclusivo, o de qualidade e excecional, será apreciado, bem pago e terá por certo mercado. Haverá mais tempo para o lazer, para o turismo e para o contacto com a natureza e essas áreas criarão oportunidades. O ambiente, a sua proteção e recuperação serão certamente alvo de cuidados e criarão trabalho. E quando falo do ambiente falo da proteção dos habitats e da biodiversidade, mas também da utilização racional dos recursos naturais, reutilização e regeneração de materiais – um novo mundo que terá que existir para corrigir todos os disparates que temos andado a fazer nos últimos séculos.
Mas, enquanto professor, e dada a imprevisível evolução do mundo, o que me parece que devo fazer é desenvolver nos alunos aquilo que sempre tentei desenvolver nos filhos: a capacidade de resolver problemas, sobretudo de resolver problemas novos. Há quem chame a isso "inteligência". Um mundo novo trará consigo problemas novos que nós ainda nem sequer imaginamos, e esses problemas vão necessitar de soluções igualmente novas. É essa capacidade que poderá ser valorizada por poder dar resposta ao diferente, ao novo, ao impensável, ao imprevisível, ao que nem sequer hoje imaginamos possa vir a acontecer. E, se querem bem aos vossos filhos, ensinem-nos a resolver problemas novos, não os afoguem em soluções velhas.



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