11h29 - quinta, 29/06/2023

O Chafariz


António Martins Quaresma
A vila de Odemira possui ainda três interessantes chafarizes antigos. São eles o Chafariz da Vila, no topo da Praça Sousa Prado, a Bica da Rola, na descida que leva ao cemitério, perto do rio Mira, e o da Fonte Férrea, no jardim do mesmo nome. Já foram importantes no abastecimento de água à população, mas hoje esse serviço é irrelevante. Depois da generalização do provimento doméstico de água, a sua utilidade perdeu-se, não sendo possível hoje garantir a potabilidade das suas águas, nem, sequer, o próprio fluxo. O interesse deles prende-se, agora, com a sua natureza de património histórico edificado.
Esta crónica vai ser dedicada ao Chafariz por algumas razões. Trata-se do que detém maior visibilidade, por se encontrar na área central do espaço urbano; possui algumas características arquitectónicas e artísticas relevantes; e, last but not least, perfaz, este ano de 2023, dois séculos de existência.
Construído em 1823, com recurso a donativos dos moradores, como informa a inscrição nele colocada, a decisão da obra insere-se, naturalmente, no clima político e social da instauração da monarquia constitucional, que rompeu com o antigo regime, que vigorara até então. De facto, a revolução liberal dera-se em 1820 e, em 23 de setembro de 1822, nas Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes, foi aprovada a primeira Constituição Política da Monarquia Portuguesa. As ideias de "cidadania", "regeneração" e "progresso" não teriam deixado de estar presentes na resolução dos "moradores", naturalmente encabeçados pelas elites locais, de dotar a vila de um melhoramento de tão notável significado. Por outro lado, dá continuidade ao modelo de intervenção urbana, com a sua política de obras públicas, tão paradigmático de Setecentos, que tem no abastecimento público de água a Lisboa, o seu máximo expoente. O provimento de água à população de Odemira fazia-se tradicionalmente através de poços, sendo de notar que, na proximidade, existiu um poço a que se chamou "poço da Rua". A utilização dos poços encontrava-se regulamentada nas posturas municipais, mas a sua água era frequentemente conspurcada com dejectos, de que advinham consequências negativas em termos higiénico-sanitários.
A sua arquitetura lembra os alçados das igrejas do século XVIII. A frontaria, de remate polilobado e delimitada por urnas assentes em pilastras, remete para as composições barrocas dos edifícios religiosos da região, que deixaram reminiscência nos modelos construtivos locais. Não se conhece, porém, o seu autor / construtor. A água corre por uma bica lavrada em cantaria, encastrada num maciço de forma piramidal, e é recolhida em tanque retangular, também de cantaria.
Bem notável é o escudo das armas reais, envoltas em grinaldas, embutido na parte superior do pano de alvenaria, sobre a inscrição já referida. É trabalho de inspiração rococó, proveniente de oficina de fora, possivelmente de Lisboa, de onde terá vindo num dos barcos que faziam a navegação de cabotagem entre a capital e Odemira.
O chafariz, inicialmente algo escondido e periférico, passou a deter uma posição de relevo em termos urbanos quando, na viragem do século XIX para o XX, a Câmara, pela mão do seu presidente José Francisco Sousa Prado, lançou o projeto de expansão urbanística da vila, materializado pela abertura de uma nova praça (Praça Sousa Prado), de que saíam duas ruas paralelas, na direcção do importante rossio designado por Poço Novo.
Hoje, apesar de ter perdido a função primordial do abastecimento de água à população e do papel social de encontro, particularmente das mulheres, que a ele iam buscar água, o Chafariz continua a ser uma referência identitária na zona histórica da vila de Odemira.



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