16h32 - quinta, 16/05/2024

Consciência


Fernando Fonseca
A consciência é "coisa" imaterial. Distingamos a consciência individual, e a consciência colectiva que se articulam reciprocamente, sendo que a colectiva é, mais do que a primeira, representativa de uma cultura comum.
A consciência individual é transitória e finita. O que permanece, são as suas consequências na consciência comum; na comunhão das consciências.
O espaço do colectivo é o lugar (imaterial, mais uma vez) onde se caldeiam as consciências, onde se aferem e onde se criam, refundindo e formulando como coisa dialética, novas consciências.
A ideia de quem somos, porque somos e como somos, constitui o triângulo da consciência. A capacidade de nos vermos "por fora", a noção da nossa finitude individual e garantidamente enquanto espécie, dá-nos uma perspectiva que os gnósticos acreditam ter uma finalidade determinada por determinação divina.
Ficcionei, na circunstância do desastre de Chernobyl, (abril de 1986) que o destino último dos humanos seria o de, devido a uma eventual penetração do urânio em fusão até o núcleo do nosso planeta, tornarmo-nos "Fazedores De Estrelas", conseguindo com esse acto derradeiro, aproximarmo-nos ou confundirmo-nos com os atributos de Deus. E como Deus, a existir, será intemporal, a humanidade toda unificar-se-ia com a divindade, ao tornar-se igualmente intemporal no regresso ao Pai, através da dispersão física e regressão dos átomos que nos constituem ou com a criação de novos, assim como do sítio cósmico que habitamos, dissolvidos no espaço/tempo.
Ora, sendo imaterial a consciência, poder-se-ia admitir a sua persistência para além do apocalipse? Improvável; porque tal como o projecto só existe a partir do risco do arquitecto, e a grandiosidade da obra só se manifesta pela utilização da pedra ou do aço não bastando o pensamento do autor para que exista, porque a luz "só existe", por haver um corpo que a irradia, do mesmo modo, a consciência é suportada pelos processos físico-químicos do fenómeno vida.
Como podemos atrever-nos à afirmação, ou mera suspeição, de que a consciência seria a última, única e perene "pegada" da humanidade?
Na ausência de quem pudesse testemunhar a intemporalidade da consciência para lá da destruição física do consciente, parece-me fútil, inconsequente e intelectualmente desonesto, afirmar (porque há quem afirme), a "eternidade" dessa componente da condição humana.
No mundo da fantasia tudo podemos conceber, mas libertos da ingenuidade infantil de acreditar serem reais, os desenhos animados. Na verdade, eles existem, mas na qualidade própria de produto fantasiado.
A fé só por si, não pode dar cobertura a tudo, sobretudo quando se criam postulados que não são comprováveis. Só o que é testemunhável ou comprovável pode ser afirmado.
Coisa distinta e que não nego, é o direito de cada um fantasiar uma hipotética "tábua de salvação" partilhando a sua fantasia, como eu próprio partilho as minhas, mas que o bom senso me impede de impor como verdade.
"Na morte o homem é confrontado com o nada e angustia-se face a algo de concreto que nos ameaça e de que temos medo (Anselmo Borges dixit).
Quando chegar a minha hora, se eu tiver a consciência da morte eminente, não sei como irei reagir. Em criança foi-me inculcado o medo da morte. Via as pessoas chorarem nos velórios e nos funerais. Pensava que o choro das carpideiras era dor verdadeira.
Aprendi, entretanto, que recusa da morte e o medo da dor, são reais, mas factores básicos para a sobrevivência. Tinha, até à experiência da guerra colonial, o medo de morrer.
Ensinaram-nos a ter medo da morte. Ao mesmo tempo tentavam convencer-nos de que o "Depois" é um estádio superior para quem não for condenado aos infernos; outra figura tipo (Olha o velho do saco). Mas havendo Paraíso porque deveríamos ter medo da morte, se sairíamos a ganhar?
Os gnósticos cultivam a crença de vida "no céu" criando naturalmente uma aura de esperança. Mas em contrapartida, porque a carne é fraca, gera um estado de ansiedade pelo receio de não ser selecionado para o divino privilégio.
E há o peso daquelas expressões que tanto ouvi proclamadas do alto do púlpito ou do altar, com o peso de grilhetas: o tão hebraico "temor de Deus", ou "humilhemo-nos perante o Senhor" e "mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa", castradoras da liberdade de pensamento e da dignidade humana.
Como se pode temer A Essência do Amor? Porquê humilharmo-nos, em vez de nos dignificarmos? E como na fábula do lobo e do cordeiro; somos culpados de um acto que, segundo o mito, alguém cometeu?
Acreditar e seguir na senda do Senhor cumprindo os mandamentos, evitando o pecado ou, arrependendo-nos sistematicamente dele sem limites da frequência do cometimento, promete ser garantia de um bilhete de primeiro balcão, para fruição de uma propalada eternidade. Valorizo mais, quem é bom sem esperar a compensação no além. A generosidade é própria das pessoas de esprito elevado. É uma Qualidade a integrar num ideal processo educativo libertário que urge implantar nos corações e na mente de cada um, e nos comportamentos concretos das sociedades; pensamento que nos remete para as duas dimensões da Consciência.
Há pessoas que sendo gnósticas, agnósticas e até ateias, morrem tranquilamente.
Mas o que é que, de concreto, nos ameaça na morte? Nada! O "Desconhecido" não existe, ninguém pode afirmar que ele está lá, do outro lado, à nossa espera.
O verdadeiro desconhecido que recua sistematicamente na fronteira do conhecimento, é algo inerente à vida real, presente no quotidiano.
É o ingrediente essencial do instante seguinte. Na verdade, somos especialistas no confronto com o desconhecido. É o que nos alicia, nos convida a percorrer o caminho das aprendizagens, da conquista do saber, do crescimento individual pela invenção da amizade, da solidariedade, da ética, elementos, entre outros, do percurso para a evolução individual, social e da espécie humana.
A morte, nada nos rouba e tão pouco deveria abafar-nos de tristeza. A morte constitui o epílogo, o momento alto e último, da vida que tudo nos deu.
Seria bom que a vida nos permitisse congratularmo-nos no momento da morte com tudo o que pudemos usufruir pelo facto de viver; com os benefícios que a aventura da humanidade nos proporcionou; de sentir a doçura de, enquanto amigos, professores, artistas e pensadores, pais e avós, termos sido capazes de passar o testemunho àqueles que irão, por sua vez, desempenhar o papel de portadores de valores dignificadores da vida e da existência em geral, contra a ignorância, a maldade e a cobiça, em prol da harmonia entre os indivíduos e os povos, e destes com o planeta de que em última instância, somos parte integrante.
Desde que Nicolau Copérnico o tirou de cima das nossas cabeças, o céu está nas nossas consciências; e os infernos somos nós que, por inépcia ou devido a pressões externas, os fazemos.
Tal como entendo, que a maior beleza está na felicidade de partilhar sem esperar contrapartida, desejaria que o viver com rectidão, bastaria para nos sentirmos em paz, própria e com o mundo, morrendo tranquilamente quando a hora chegasse.

O que permanece, são as suas consequências dos nossos actos na consciência comum; na comunhão das consciências.
Só na memória dos vindouros poderemos ser imortais.



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