15h29 - quinta, 01/07/2021

Memória social


António Martins Quaresma
1. Passo a vida a queixar-me de que a minha memória está cada vez pior e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, a verberar a falta de memória que vejo à minha volta. Claro que uma coisa é a memória, enquanto capacidade fisiológica, e outra a "bagagem" de conhecimento que ela pode assimilar ao longo da vida. Conceitos diferentes. Dir-se-á que é tudo natural, pois "já não vou para novo", o que é verdade.
Mas o assunto não é de somenos. Sobre a importância política da memória, basta evocar conhecidos casos da sua adulteração, como seja a tentativa de "apagar uma pessoa da fotografia", ou até substituí-la por outra que nem dela constava, do tipo manipulação com Photoshop, maleficência que é comum associar a Estaline e ao ambiente concentracionário que personificou. Enquanto metáfora, porém, a "manipulação da fotografia" pode aplicar-se a qualquer situação em que alguém é, com propósitos mais ou menos reprováveis, ignorado ou menosprezado, e bem pode ocorrer noutros tempos e lugares. E, o que é pior, se o visado procura repor alguma verdade, corre o risco de ele próprio passar por se estar a "pôr em bicos de pés".

2. A memória colectiva ou a memória social – não vou usar os conceitos de forma rigorosa – são espaços de lembrança e esquecimento. Acode-me à ideia uma situação particular. A partir de 1986 foi divulgada, em Vila Nova de Milfontes, a data da sua fundação enquanto vila" (carta régia de 1 de Setembro de 1486), exactamente quando perfez 500 anos, levando a que, hoje em dia, a Junta de Freguesia realize anualmente uma pequena comemoração, a modo de "festa de aniversário", com bolo, velas e espumante. Uma espécie de "lugar da memória", no conceito de Pierre Nora.
Um pouco surpreendido, tenho notado que muita gente, inconsciente do papel da historiografia, assumiu, ingénua e a-historicamente, que a população tem contabilizado, ao longo dos tempos, desde os primórdios, a sucessão dos anos, numa visão quase biográfica da história quingentésima da terra. Numa das noites de festa, apercebi-me de alguém que estava a propor convidar-se certo sujeito para discursar porque "sabia falar muito bem", numa completa dissociação de um facto marcante da história da vila da sua própria história. E eu, que, neste caso, sempre expressei o desejo de apagamento da figura do mensageiro em favor da divulgação da mensagem, acabei a sentir um certo desconforto.

3. A construção da memória social não é inocente, nem está liberta de condicionantes exteriores. Ela é susceptível a uma multiplicidade de agentes e interesses. Hoje em dia, os media, em particular os audiovisuais, as "redes sociais", etc. podem ter um papel como condicionantes e até "fabricantes" de memória. Alguns epifenómenos, de escala local, mostram essa dimensão, como o caso invulgar de um sabido que consegue impor uma romântica imagem pública de si, por necessidade obsessiva de visibilidade, e o dos novos aprendizes da política partidária, que a cada dia descobrem a pólvora com um confuso discurso triunfal, arvorados, sem quaisquer credenciais, em salvadores da sociedade odemirense.
Bem entendido, apesar do que escrevi antes – no fundo uma selecção de poucos casos que, sendo sugestivos, constituem apenas um aspecto muito parcial – há que reconhecer que existem condições objectivas para a vulnerabilidade da memória social e que esta não é linear e estará sempre sujeita a aportes e conflitos diversos, a uma dinâmica que faz parte da sua essência. Se avaliarmos um pequeno território, como o concelho de Odemira, em micro-análise e no tempo curto, encontramos factores como a renovação geracional e a afluência de população proveniente de outros lugares, bem como a existência, ou não, de mecanismos sociais ou culturais que permitam criar os elos necessários para uma mais fiel transmissão e continuidade da informação.
No que respeita a terras como Milfontes, onde a sociedade sofre fortes inputs a vários níveis, o observador arrisca, de quando em quando, a ser surpreendido. E a entregar-se a divagações como a desta crónica.



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Data: 30/07/2021
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