14h54 - quinta, 30/09/2021

O direito à dúvida


Fernando Almeida
Sempre gostei, mas gosto cada vez mais, do nosso povo. É quase sempre gente boa e sã, e muito embora lhe tenha faltado desde sempre educação escolar, é geralmente gente de uma sabedoria discreta, o que escapa à observação de muitos que se acham grandes intelectuais por terem gasto solas nos corredores das faculdades. À falta de letras com que construir livros e de bibliotecas onde os guardar, o povo iletrado foi juntando informação, pensamento e saber na sua memória, decorando e reproduzindo de geração em geração o saber que ia juntando. Além dos ditados populares, que usam com frequência rimas para melhor se memorizarem, os portugueses criaram ou acolheram de outros povos muitas histórias que visam transmitir ensinamentos e preceitos morais. Muitas delas são comuns a grande parte das gentes do Mediterrâneo e da Europa, e são traduções ou adaptações, cuja origem primordial será hoje difícil de determinar.
Como digo, eu gosto desse saber ancestral e despretensioso, e por isso com frequência me lembro de ditados e lendas que me ensinaram ao longo da vida. Ultimamente vem-me à ideia aquela história do "Pedro e do Lobo" cada vez que vejo a desconfiança das pessoas (e não só portuguesas) nas instituições. E isto vem a propósito dos "negacionistas" e das muitas "teorias da conspiração" que vão surgindo regularmente. Como sabemos, o Pedro, fartinho de estar sozinho a guardar as ovelhas, de quando em quando pedia socorro aos gritos, dizendo que os animais estavam a ser atacados pelos lobos. Mas como ele apenas queria companhia, e os ataques do lobo eram sempre falsos, o povo deixou de lhe acudir por achar que não havia qualquer perigo. Mas um dia vieram mesmo os lobos…
Ora nós, como o povo da aldeia do Pedro e da sua história de lobos inventados, temos sido enganados constantemente pelas elites que nos usam em benefício próprio, e quem ande acordado no mundo tem certamente memória disso. Os políticos enganam-nos quando inventam motivos falsos para invadir países, quando nos afiançam a estabilidade de bancos que sabem falidos, quando prometem aquilo que sabem que não vão cumprir… Mas aquilo a que nós chamamos de ciência também não se pode gabar de ausência de pecados nessa matéria, que os cientistas são gente como a demais e também se deixam tentar pelo dinheiro e posição social e laboral. Assim nasceram grandes fraudes científicas, algumas das quais, que sobreviveram dezenas de anos, como o chamado "Homem de Piltdown" e outras já conhecidas, e ainda outras que estão à espera de ser desmascaradas. Fraudes de menor dimensão têm recorrentemente sido usadas para beneficiar setores da economia, e em particular da indústria farmacêutica. Por exemplo, lá para os Anos 70 do século passado, quando as potências agrícolas do mundo (encabeçadas pelos EUA) tinham oleaginosas a mais, como soja, milho e girassol, criaram uma verdadeira "cruzada científica" contra o azeite, e assim conseguiram ocupar com os seus óleos o mercado tradicionalmente pertencente ao azeite. Os exemplos são muitos e por isso, como "gato escaldado de água fria tem medo", as pessoas começam por vezes a desconfiar…
Mais recentemente o tema tem sido "pandemia", e também aqui se notam inverdades, incoerências e decisões estranhas que levantam dúvidas. Lembro-me de os serviços responsáveis pela gestão da pandemia afirmarem que o uso de máscara não era necessário, e mesmo que não era recomendado. Ora isso, por acaso ou talvez não, foi enquanto não havia máscaras no ocidente, que como tantas outras coisas eram só fabricadas na China ou na Ásia, que é a atual fábrica do mundo. Quando começamos a ter máscaras com abundância, o seu uso passou não só a ser recomendado como também obrigatório. Também me lembro de se dizer que os jovens não transmitiam o vírus, e que por isso as escolas podiam funcionar sem problemas. Mas isso, se a memória não me falha, foi enquanto acharam que podiam manter a economia a funcionar normalmente, e sabiam que mandar as crianças para casa implicava que os pais ficassem igualmente em casa. O estranho é que agora, com a população quase toda vacinada e com os jovens quase todos vacinados, ainda é obrigatório o uso de máscara nas escolas, e não só nas salas de aula, como também ao ar livre, nos pátios. Se inicialmente era estranho aceitar que os jovens não fossem portadores do vírus, e assim não contagiassem os mais velhos, agora é ainda mais estranho aceitar que mesmo vacinados continuem a ser um perigo potencial para a sociedade. Há coisas que não se entendem…
Mas se este processo caminhar como parece, alguém se está a preparar para criar uma "terceira dose", que inicialmente será destinada aos imunodeprimidos (coisa que vamos aceitar), que depois se estenderá aos mais velhos (coisa que vamos compreender), em seguida aos portadores de algumas doenças (não será de estranhar), e finalmente será generalizado à população (o que vamos acabar por aceitar por nos dizerem que será para o nosso bem). E aqui a dúvida assalta-me: será necessário realmente uma terceira dose da vacina, ou é mais um "esquema" das elites e dos grandes grupos económicos para tirar vantagem da situação? Estão genuinamente preocupados com a nossa saúde ou há mais alguma coisa que nos escondem (e que dá até origem às mais tresloucadas "teorias da conspiração")?
Se a gente da política (e mesmo da ciência) tivesse um passado limpo e sem mácula, nós acreditaríamos no que nos dissessem sem pestanejar, mas não é assim. Já nos enganaram muita vez, e nós temos o direito de duvidar, porque também sabemos que "cesteiro que faz um cesto, faz um cento, se lhe derem verga e tempo".



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Data: 26/11/2021
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