15h45 - quinta, 09/12/2021

Pequeno passeio recreativo


António Martins Quaresma
No fim do século XVIII e primeira metade do XIX, a "literatura de viagens", pela mão dos ingleses Robert Southey, George Landmann e o Conde de Carnarvon deixou impressões sobre o Litoral Alentejano, em particular sobre Vila Nova de Milfontes, então a única povoação litorânea entre Sines e Odeceixe.
Seguindo a mesma linha, outro autor inglês, John Gibbons (1882-1949), escreveu, já no século XX, alguns livros sobre Portugal, o primeiro dos quais intitulado A Foot in Portugal, dado à estampa em 1931, que relata uma viagem feita no ano anterior, no Algarve e no Alentejo. Em 1934, ele voltou a Portugal, a convite das comissões de iniciativa do turismo algarvio, de que resultou um novo livro intitulado Playtime in Portugal – An Unconventional Guide to the Algarve, e, mais tarde, ao Norte de Portugal. A sua repetida vinda a Portugal e as suas descrições de sabor turístico, em pleno Estado Novo, acabou por ser aproveitada para propaganda do regime.
Vindo do Algarve, depois de uma vagarosa viagem de burro, de carroça e a pé, em razão da má rede viária, Gibbons chegou a São Teotónio, onde a sua entrada suscitou curiosidade. Dois habitantes, depois de uma conversa em francês rudimentar, a língua estrangeira com alguma difusão em Portugal, convidaram-no para um "pequeno passeio recreativo" ("a little excursion of pleaser"). Então, numa carroça, sem molas, puxada por dois possantes cavalos de trabalho, sobre a qual haviam colocado cadeiras de cozinha, o grupo, com o inglês no lugar "de honra", ao lado do condutor, dirigiu-se para o destino surpresa, através de um caminho, inicialmente muito mau, inclusive com troncos de árvores atravessadas no trilho, a que se seguiu uma zona aberta, em geral arenosa, numa espécie de corta-mato, com a vegetação espontânea da charneca pela barriga dos cavalos. Chegados ao fim do trajecto, que percorreram em cerca de duas horas, os excursionistas encontravam-se na praia da Zambujeira, que os anfitriães queriam, orgulhosos, mostrar ao inabitual visitante.
A primeira impressão do inglês foi de desencanto, diante de um lugarejo bem modesto, de humildes habitações, sobre uma alta arriba xistosa e estéril defronte do Atlântico, que era a Zambujeira do Mar em 1930. Notou que os habitantes se dedicavam sobretudo à pesca, em pequenos barcos quando o mar permitia, ou com grandes canas e compridas linhas do alto dos rochedos quando não.
Bem depressa, porém, a sua desilusão deu lugar a um sentimento de agrado pela hospitalidade dos habitantes, que, mal o carro parou, o rodearam e convidaram os recém-chegados a comerem e beberem, com mostras de grande deferência. O inglês não refere a presença de banhistas: estava-se provavelmente na "época baixa", talvez no Outono adiantado, porque, embora o tempo estivesse soalheiro, ele viu no caminho para Odemira um camponês a lavrar um terreno húmido.
John Gibbons elogiou os habitantes, que apesar da pobreza, se mostraram ofendidos quando ele quis pagar, e fez comparação entre a nobreza da atitude desta gente e a fama de que Portugal, como todos os países latinos, era um país de grosseiros pedinchões. Quando ele, em retribuição, ofereceu uma laranja a uma criança, pareceu a toda a gente uma magnífica oferta, naquela aldeia árida, varrida por ventos marítimos, onde estes "mimos" não seriam frequentes. No regresso, já anoitecia, mas o condutor dirigiu a viatura no meio da escuridão, sem hesitações, apesar de, ocasionalmente, os animais embaterem nos arbustos.
Embora formada por pobres habitações, de construção algo primitiva, inclusive com piso de terra, Zambujeira era, então, uma povoação em crescimento, boa parte sob a pressão da busca balnear, especialmente de gente da sede e do interior do concelho. Entre 1911 e 1940, o número de fogos cresceu de 11 para 111 fogos. Inclusive, na década de 1930, sugerindo essa rápida ocupação urbana, era notada a edificação de casas sem alinhamento, o que originou críticas, mas, na parte mais antiga, podemos vislumbrar uma certa regularidade do arruamento, sinal de que houve algum planeamento.
Quando seguiu viagem, na direcção de Odemira, o viajante inglês levou uma amável recordação da sua permanência na aldeia de São Teotónio e do "pequeno passeio recreativo" que fez à praia da Zambujeira – hoje uma estância de referência da costa alentejana.



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