17h02 - quinta, 13/01/2022

A memória


Napoleão Mira
A memória é um armário antigo onde se guardam os registos de uma vida.
De cada gaveta que se abre, salta lá de dentro um episódio da nossa existência. Um suspiro em forma de saudade para aqueles que só aí habitam, a recordação de um amor juvenil ou o inconfundível aroma da comida de panela da nossa avó, vindo lá dos confins desse corredor onde ecoam passos e vozes, onde nunca mais poderemos regressar.
São os tempos de glória, a foto debotada com dedicatória ou mesmo a medalha enferrujada de uma certa vitória.
É o sorriso escancarado em dia de revolução há muito esperado.
É a esperança perdida, o primeiro grito de vida de um filho sempre desejado.
É tanta coisa, que é de certeza o nosso fado!
A memória não é mais que a nossa história. Uma história feita de triunfos e fracassos, de sorrisos e cansaços, de valentias e fraquezas, de noites e de dias ou até de sonhos e realidades.
Na nossa história cabem as viagens que fizemos, as com que simplesmente sonhámos e mesmo aquelas que nunca iremos fazer. Se quisermos sintetizar a nossa história num episódio de pastelaria, esta, se fosse bolo, seria um mil-folhas.
Um homem sem memória é um vulto perdido no tempo. Um mentecapto que não sabe viver ao sabor do pensamento, um ser extravagante que vive uma realidade distante, um ser perdido na voragem dos abismos da existência.
Aqui não há muito tempo, durante um bom pedaço, fiquei amnésico e por uma hora ou mais perdi o meu bem mais precioso: a minha memória!
Soube posteriormente, pelas pessoas com quem me cruzei, das atitudes que tomei, das conversas que entabulei ou dos erráticos passos que percorri.
Na verdade, nada me doeu e nada senti. Se porventura tivesse por lá ficado, nem me teria apercebido que, assim de um instante para o outro, tinha perdido o meu mais valioso património. Os meu acervo em forma de lembrança dos meus 65 anos de vida.
Fernando Pessoa ao longo dos seus 47 anos de existência escreveu cerca de 25.000 documentos em forma de poesia (a maioria), pensamentos, contos, romance ou mesmo ensaios.
Tudo isto foi sendo ao longo dos anos depositado no famoso baú que ainda hoje é objecto de estudo e investigação. Dizem os entendidos que demorará ainda algumas vidas a decifrar essa arca do conhecimento e da memória, onde o príncipe dos poetas, o metafísico da palavra, guardava os seus pensamentos.
Sempre entendi que este baú, este precioso baú, continha o tesouro mais precioso: a memória de Fernando Pessoa e de todas as personagens que nele ganharam vida.
A escrita trouxe-me para aqui e, se a memória não me atraiçoa, no ano de 1983 conheci na praia de Centeanes, no Algarve, o poeta, dramaturgo, romancista e primeiro editor de Fernando Pessoa, João Gaspar Simões, na altura um senhor de provecta idade, talvez uns 83 ou 84 anos. Achou graça ao facto de um empregado de mesa ter tanta curiosidade sobre esse seu amigo que há muito deixara o nosso convívio.
Gaspar Simões era, ao tempo, o fiel depositário do 'santo graal' da poesia, ou seja, da arca da memória que Fernando Pessoa habilmente nos soube deixar.
Esse verão foi feito em caminhadas na praia a satisfazer (em primeira mão) a minha curiosidade, a minha sede de conhecimento desse ser maior do pensamento português.
Eu, que até nem gosto de praia, nunca gostei tanto dela como nesse verão de 83, altura em que conheci, entre muitas personagens da intelectualidade portuguesa, esse guardião do espólio pessoano que me desvendou episódios da vida deste e, de repente, assim como que por magia, também o sentia ali ao nosso lado a caminhar na praia.
São memórias como estas. Pérolas em forma de lembrança. Preciosidades em forma de recordação, que fazem desse espólio memorativo o meu maior tesouro.
Na verdade, assusta-me a ideia de a perder. Amedronta-me o partir para outras frequências onde não a possa levar comigo.
Afinal, a memória é o salão nobre dessa casa apalaçada chamada: conhecimento!



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